3 de maio de 2017

Adeus às armas

Sei que à noite o mundo não é o mesmo que de dia. Que as coisas que pertencem à noite não podem ser explicadas durante o dia, porque de dia não existem — a noite se torna ameaçadora para pessoas solitárias, essas que já de começo conhecem a solidão (...) 
Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Ernest Hemingway em Adeus às Armas.

12 de abril de 2017

Le Feu follet


Eu gostaria de ter 
cativado as pessoas, 
retê-las, mantê-las próximas. 
Para que nada mais se movesse ao meu redor, mas tudo sempre deu errado.

  — Realmente ama as pessoas a esse ponto?

 — Queria tanto ter sido amado... que eu amo.
Le feu follet, Trinta anos esta noite, Louis Malle, 1963, França.

De Vladimir Nabokov para Véra

Sim, preciso de você (...) Porque é a única pessoa com quem posso conversar sobre a sombra de uma nuvem, a melodia de um pensamento – e sobre como hoje, ao sair de casa para trabalhar, dei de cara com um girassol bem alto e ele sorriu para mim com todas as suas sementes.

Para ler a íntegra da matéria clique aqui
http://piaui.folha.uol.com.br/materia/so-arte-me-interessa-mas-amo-voce/

Carta de Vladimir Nabokov escritor russo (1899–1977) autor de Lolita para sua mulher Véra Slonim (Letters to Véra)

8 de abril de 2017

Sobre a solidão

De Maysa para Carlos Alberto

Meu amor,
Agora que você adormeceu, que esse dia passou a ser uma partida, agora que até um sol meio canalha está me gozando, passeando aqui pela varanda, agora que é agora só por instantes e vai ser depois inexoravelmente, e que, não há a menor dúvida, você parte nesse depois, é que acho que a única coisa que me resta é fazer como os tolos infelizes, ou seja, emudecer, deixar que os meus olhos, que são a minha verdadeira boca, saibam, com a dignidade que só os cães têm, fazer do silêncio a minha forma de te acompanhar, de estar contigo nesta ida tua que eu não entendo, mas devo.

Transformar todos esses verbos, entender, partir, dever, partir, em um só: amar. Amar tudo que seja teu, até mesmo a tua partida. O diabo é que não é fácil. Enquanto estou aqui gravando tua fita, o som das músicas que são da gente é uma faca que me corta, corta tanto que a dor está rindo pelo conseguido. E, por falar em rir, como é triste o som de um violino quando a gente está triste. Nunca tinha percebido isso. Ao contrário, sempre achei que o violino era o rei da demagogia. Que nada, amor. É um puta sabe-tudo, companheiro pacas, e chora tão bonito quanto eu.

Volta amor, porque fiquei aqui.
Te amo.

Maysa

Para ler a íntegra clique aqui

7 de abril de 2017

Cartas de Amor do Profeta

O silêncio é doloroso, mas é no silêncio que as coisas tomam forma, e existem momentos em nossas vidas em que tudo que devemos fazer é esperar. Dentro de cada um, no mais profundo do ser, está uma força que vê e escuta aquilo que não podemos ainda perceber. Tudo o que somos hoje nasceu daquele silêncio de ontem. Somos muito mais capazes do que pensamos. Há momentos em que a única maneira de aprender é não tomar qualquer iniciativa, não fazer nada. Porque, mesmo nos momentos de total inação, esta nossa parte secreta está trabalhando e aprendendo. Quando o conhecimento oculto na alma se manifesta, ficamos surpresos conosco mesmos, e nossos pensamentos de inverno se transformam em flores, que cantam canções nunca antes sonhadas. A vida sempre nos dará mais do que achamos que merecemos (...)
Minha amada Mary, quando a alma está mergulhada em pensamentos que mudam sempre, perdemos o poder das palavras. Mas, embora a minha lenta compreensão de Deus tenha me acompanhado por todos estes meses, nunca deixei de estar com você, e sempre tive certeza de que nós dois nos falamos através deste silêncio exterior.
Precisamos de uma companhia para conversar de madrugada, ou durante os longos passeios no parque. Mesmo distante, você tem sido esta companheira.
A dor pode ser criativa. Sejamos bem directos, e analisemos o nosso caso: sofri muito por tua causa, e o mesmo aconteceu contigo. Mas foi graças a isso que descobrimos coisas - dentro de nós - de quem nem sequer sabíamos da existência.
Algumas pessoas atingem o que há de melhor na vida usando a alegria. Outros usam o sofrimento.
Mas a maior parte dos seres humanos não se permite nem uma coisa, nem outra; então, não atingem nada, e apenas passam por esta vida.
Cartas de Amor do Profeta, correspondência de Kahlil Gibran a Mary Haskell

6 de abril de 2017

Palavras lascivas em voz de veludo

O homem ri, ri da solidão que debruça na janela ou estica-se na cama, da solidão tamanha que parece ganhar corpo e ocupar espaço e tempo, ri da descrença, ri em pé, encostado na parede tomando seu café na madrugada vazia, ri das horas que se estendem sem companhia, ri dos vultos de sua memória, da mulher que ajoelha aos seus pés na hora da partida implorando por sua permanência, ri dos inimigos que mais parecem amantes, ri da eficácia da mentira e da aparência impecável e rigorosa com que sustentam os amantes, ri da forma como ela pronuncia o seu nome e de sua beleza jovial, proferindo palavras lascivas em voz de veludo
enquanto dobra minuciosamente a manga de seu paletó verde musgo
ri do confronto lancinante entre a carne e alma e da certeza indelével de que o amor é fonte de paz e tormenta.

Milan Kundera

Quando a dor se torna aguda, o mundo desvanece-se e cada um de nós fica a sós consigo mesmo. A dor é a Escola Superior do egocentrismo.

Será pensável o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando deixamos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de o amar.

Milan Kundera - A imortalidade

Para Sabina, viver na verdade, não mentir nem a si próprio nem aos outros, só é possível se não houver público nenhum. A partir do momento em que os nossos actos têm uma testemunha, quer queiramos quer não, adaptamo-nos aos olhos que nos observam; e, a partir de então, nada do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar num público, é viver na mentira.

Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona de seu cérebro. Tereza ocupava como déspota sua memória poética e dela varrera todos os traços das outras mulheres. (…) O amor começa por uma metáfora. Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética.”


Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser

Thomas Mann

Cheguei ao termo, Lisavieta. Ouça-me. Amo a vida — isto é uma confissão.
Aceite-a e guarde-a — eu nunca a fiz a ninguém.
Ele seguia o caminho que devia seguir, um pouco negligente e sem ritmo, assobiando, com a cabeça inclinada para o lado, olhando para a distância, e, quando errava o caminho, isto acontecia porque para alguns seres não existem caminhos certos. Quando lhe perguntavam o que pensava ser, dava informações contraditórias, pois que costumava dizer (e já tomara nota disto) que trazia em si possibilidades para mil existências, tendo no íntimo o conhecimento de, no fundo, serem tudo coisas impossíveis (...)
Então veio a solidão, com o tormento e o orgulho da cognição, porque não se sentia bem no círculo dos inocentes com a alma alegre e obscura e estes, por sua vez, sentiam-se perturbados pelo sinal na sua testa. Mas a alegria na palavra e nas formas se tornou cada vez mais doce para ele, pois costumava dizer (e já tomara nota disto) que o conhecimento da alma somente nos faria infalívelmente tristonhos, se o contentamento da expressão não nos conservasse acordados e alegres.

Thomas Mann (Tônio Kroeger - Morte em Veneza)

5 de abril de 2017

Walt Whitman - Leaves of Grass

Primeiro encontro

És tu uma pessoa atraída por mim?

ARE YOU THE NEW PERSON DRAWN TOWARD ME?
A nova pessoa que vem a mim 
é você? 
Ouça um conselho, para começar: 
esteja alerta, sou com certeza bem diferente 
do que imagina
Você imagina encontrar em mim 
seu ideal?
Pensas que é tão fácil ter-me como teu amante?
Pensa que minha amizade 
é fonte de satisfação sem impureza? 
Julga que eu seja fiel e digno de confiança? 
Além desta fachada, 
do meu jeito macio e tolerante, 
você não vê mais nada? 
Acha que vem avançando 
em bases realmente firmes 
na direção de um homem realmente heroico? 
Pela cabeça nunca lhe passou, 
ó sonhadora, 
que tudo isso pode ser maya, ilusão? (p. 63)

Tempos idos

Para ti
TO YOU

Seja você quem for, receio que você esteja 
trilhando as trilhas das ilusões: 
receio que essas supostas realidades 
venham a derreter-se debaixo dos seus pés 
e suas mãos; 
Agora mesmo os teus traços, alegrias, discurso,
casa, negócios, maneiras, problemas, loucuras, trajes,
crimes se dissipam e fogem de ti,
Teus verdadeiros corpo e alma aparecem diante de mim,
Eles se destacam, além dos afazeres, além do comércio,
oficinas, trabalho, fazendas, roupas, a casa, compras,
vendas, refeições, bebidas, sofrimento, morte.
Quem quer que sejas, agora eu imponho as minhas mãos
sobre ti para que sejas meu poema,
Sussurro com meus lábios, próximo ao teu ouvido,
Tenho amado muitas mulheres e homens, mas amo-te mais do que qualquer um.

Ao final

Quem quer que me estejas agora segurando nas mãos
WHOEVER YOU ARE HOLDING ME NOW IN HAND

Seja você quem for 
agora segurando minha mão 
sem uma coisa há de ser tudo inútil 
– é um leal aviso que lhe dou 
antes que continue a me tentar: 
não sou aquele que você imagina, 
mas muito diferente.
Quem é que gostaria 
de vir a ser um seguidor meu? 
Quem é que gostaria de lançar 
sua candidatura ao meu afeto?
O caminho é suspeito, 
o resultado é incerto, destrutivo talvez; 
teriam que abrir mão de tudo mais 
tendo eu a pretensão 
de ser seu padrão único e exclusivo; 
sua iniciação haveria de ser ainda assim 
extensa e fatigante, 
toda a teoria da sua vida passada 
e toda conformidade com as vidas em redor 
precisariam ser abandonadas; 
por isso deixe-me agora 
antes de perturbar-se ainda mais, 
deixe cair sua mão no meu ombro, 
coloque-me de lado e siga seu caminho. (p. 59)


Walt Whitman, Leaves of Grass (Folhas de Relva)

31 de janeiro de 2017

O confronto do eu

Ás vezes é a necessidade do silêncio
abafando os ruídos cotidianos
o trafego ensurdecedor,
o carro, o cão latindo na rua ao lado

interrompendo a televisão ligada inutilmente
para distrair a solidão
com vozes alheias

a solidão é latente nas pessoas que caminham
ao redor apressadas ou sorridentes,
a voz interior desconfortável
e tão necessária,
ouvir o som da própria respiração 
pode ser o alívio
sentir a vida em todos os poros
em instantes tudo clarifica

ás vezes é a vontade de trocar de pele
de corpo
de tom de voz,
de nome e de sobrenome
cultivar só o amor
o confronto do eu
é como um filme em preto e branco, longo
demasiado
uma serie de repetições
e o que é senão a vida?
e a poesia reside ali
nessas brechas raras
naquela moeda caída no chão
que todo mundo pisa e não vê
nos corpo que colidem, se emaranham
desesperados
ou no violino que toca e os transeuntes
apressados ignoram.

Crônicas do Mal de Amor - Elena Ferrante (Talvez seja só silêncio)

Um percurso marcado pela contenção: cada palavra, cada frase, é limada de modo a ter o efeito semelhante ao da moinha que corrói, da dor, do lancinante capaz de transformar o mais lúcido em louco. 
(....) O que se segue é uma luta pessoal em que o que é decente ou sórdido, moral ou imoral, lógico ou louco se sucede sem aviso. Alguém tenta encontrar o seu lugar no mundo depois de uma notícia à sobremesa que tem o efeito de uma vertigem. A queda perece inevitável e o percurso é uma espiral — quem a percorre tenta tanto evitar o chão como chegar lá o mais depressa possível. 
E Olga a pensar: “Não passamos de seres ocasionais.” 
(...) É no desequilíbrio que nos revelamos.

Trechos da análise critica e resenha de Crônicas do Mal de Amor de Elena Ferrante.



A Mão e a Luva

— Mas que me dá você em paga? Um lugar na Câmara? Uma pasta de ministro? 
— O lustre do meu nome, respondeu ele.
Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão...
          Trecho do segundo romance A mão e a luva (Machado de Assis,1874)

30 de janeiro de 2017

Jorge Luis Borges - 1964

O mundo já não é mágico, deixaram-te sair
Já não compartilhas a lua clara
nem os jardins lentos.
Já não há uma lua que não seja espelho do passado,
Cristal da solidão, sol das agonias.
Adeus às mãos e os pares mútuos
que o amor aproximou.
Hoje só tens a fiel memória e os dias desertos.
Ninguém perde (repetes inutilmente)
Senão o que não tem e que tinha tido,
porém não é bastante ser valente
para aprender a arte do esquecimento.
Um símbolo, uma rosa, se desgarra
E te pode matar uma guitarra.

Já não serei feliz. Talvez não importa.
Há muitas outras coisas neste mundo;
Um instante qualquer é mais profundo
e diverso do que o mar. A vida é curta
embora as horas sejam assim tão largas,
uma obscura maravilha nos achega,
a morte, esse outro mar, essa outra seta
que nos livra do sol, da lua
e do amor. A felicidade que me destes
e me tomastes deve ser apagada;
O que era tudo não deve ser nada.
Só me resta o gozo de estar triste,
Este vão costume que me inclina
ao sul, para certa porta, para certa esquina.

11 de dezembro de 2016

O adeus

Ás vezes é um adeus cerimonioso, 
do brotar de uma lágrima
Noutro um sorriso tímido e discreto da moça branca
como a neve
Às vezes é um adeus traiçoeiro em plena luz do dia
que transforma nosso mundo em tempestade
As vezes é aquela palavra engasgada na garganta
Que teimamos em não dizer
E fica, fica, fica assim por dizer
Num dia qualquer, amarga na solidão, no pesar do tempo
E no tiquetaquear do ponteiros
O adeus é sempre um punhal cravado no peito
E irremediável é a saudade.

Em Homenagem a Ferreira Gullar 1930 - 2016

10 de dezembro de 2016

Johnny Cash - Hurt


If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

Escre ver-me

Nunca escrevi 

sou 
apenas um tradutor de silêncios 

a vida 
tatuou-me os olhos 
janelas 
em que me transcrevo e apago 

sou 
um soldado 
que se apaixona 
pelo inimigo que vai matar.

Mia Couto
Raiz de orvalho e outros poemas

18 de outubro de 2016

A mão e a luva

Fechando o punho, coração a toda prova, 
A palpitar, nas noites tenebrosas dos amores febris
Cada adeus é um golpe, punhal cravado no peito
O amor é traiçoeiro assim como as paixões
assim como a solidão
Contemplo tanto o abismo, como a exaltação

Uma canção familiar, um sorriso negligente
uma carta antiga com caligrafia desleixada
o aroma das flores de outono, o perfume tão peculiar

As mãos que jamais tocaram o rosto vulnerável
destacados por olhos melancólicos e indomáveis
os pés que jamais tocaram a areia, o mar
o sonho desfeito, perigosa recordação
é o suficiente para rasgar um coração
o suficiente para fazer o mais severo dos homens desmoronar.

16 de outubro de 2016

O sol também se levanta

O gesto polido, elegante, de afável ternura
Jamais fadado a trivialidade
Contempla a embriaguez do mesmo vinho, 
Das mesmas cores
Olhos  melancólicos de tão azuis,
Mirava o céu
Cor de mar, mar que afaga, mar que devora
Mar que repele
O sol também se levanta
Mesmo quando tudo parecer findar
E o amor desmorona na luz do dia
O sol também se levanta
Eis o acalento, o determinante consolo.

28 de setembro de 2016

Talvez seja só silêncio

Só o amor ressuscita  
quando os olhos não alcançam a luz
quando o corpo exausto não encontra abrigo 
nos braços de ternura e alma parece definhar
quando os caminhos parecem indizíveis e a jornada intolerável
quando todos os gestos e sonhos
antes tão ávidos parecem superficiais
quando a beleza torna-se opressora
e nem o vinho e o sangue nas veias, bastam
só o amor ressuscita um coração cambaleante
ou talvez o silêncio. 

27 de setembro de 2016

Transparente escuridão

Nem lágrimas, nem flores, nem amores brutos
nem excessos, bebidas fortes e nem o alento do outono
céu e luar, despedidas dilacerantes
nada distraí essa monotonia do ritual dos dias 
ás vezes me deixo levar 
por alguma rua sem fim,
ás vezes me atiro de algum abismo, de um penhasco
na espera de que alguma coisa dentro de mim
renasça
e a coragem sempre me traí. 

5 de setembro de 2016

Esquecimento e Reinventar-se

E também não basta ter recordações. É preciso saber esquecê-las, quando são muitas, e esperar que retornem por si. Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa hora muito rara brote no meio delas a primeira palavra de um poema.

Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge

Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegasse a seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros.

Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta

18 de agosto de 2016

A eternidade e um dia

Amanhã, o que é o amanhã? 
Uma vez te perguntei quanto tempo dura o amanhã e você respondeu: uma eternidade e um dia.
Theo Angelopoulos, 1998






17 de agosto de 2016

Anais Nin

Em dezembro de 1946, Leo Lerman, editor de uma revista, pediu a Anaïs Nin que escrevesse uma curta autobiografia para a publicação. Ela declinou o convite com uma carta, completa aqui: https://raiar.wordpress.com/tag/anais-nin/

Eu me vejo e a minha vida a cada dia de um modo diferente. O que eu posso dizer? Os fatos mentem. Tenho sido Don Quixote, sempre criando um mundo por conta própria. Eu sou todas as mulheres nas novelas, e ainda assim sou outra que não está nas novelas. Levei mais de sessenta volumes de diário até agora para contar sobre minha vida. Como Oscar Wilde, coloquei apenas minha arte em meu trabalho e meu gênio em minha vida. Minha vida não é possível de contar. Eu mudo a cada dia, mudo meus padrões, meus conceitos, minhas interpretações. Sou uma série de humores e sensações. Atuo em mil papéis. Choramingo quando percebo que outras pessoas estão atuando neles por mim. Meu verdadeiro eu é desconhecido. Meu trabalho é meramente uma essência dessa vasta e profunda aventura. Eu crio um mito e uma lenda, uma mentira, um conto de fadas, um mundo mágico, que colapsa todo dia e me faz sentir como se estivesse indo à la Virginia Woolf. Eu tentei não ser neurótica, não romântica, não destrutiva, mas posso ser tudo isso disfarçado.

É impossível fazer meu retrato por causa de minha mobilidade. Não sou fotogênica por causa de minha mobilidade. Paz, serenidade e integração são desconhecidos meus. Meu clima familiar é a ansiedade. Eu escrevo enquanto respiro, naturalmente, fluidamente, espontaneamente, a partir de um transbordamento, não como um substituto para a vida. Estou mais interessada em fazer amor do que em escrever. Mais interessada em me tornar uma obra de arte do que em criar uma. Sou mais interessante do que aquilo que escrevo. Acima de tudo, tenho o dom do relacionamento. Eu não tenho confiança em mim mesma e grande confiança nos outros. Preciso de amor mais do que de comida. Tropeço e cometo erros, e frequentemente quero morrer. Quando eu pareço mais transparente é provavelmente quando acabei de sair do fogo. Sempre caminho para o fogo, e saio dele viva (...)

Penso que a vida é trágica, não cômica, porque não tenho desapego. Tenho sido culpada de idealização, culpada de tudo exceto desapego. Sou culpada de fabricar um mundo no qual eu possa viver e convidar outros a viver nele, mas fora dele não consigo respirar. Sou culpada de uma vida muito séria, muito grave, mas nunca de uma vida superficial. Eu tenho vivido em minhas profundezas. Minha primeira tragédia me mandou para o fundo do mar; vivo em um submarino, e muito raramente venho à superfície. Adoro costumes, a espuma da estética, noblesse oblige, e escritores poéticos. Aos quinze anos eu queria ser Joana D’arc, e depois, Don Quixote. Nunca acordei de minha familiaridade com miragens, e provavelmente terminarei em um claustro de ópio. 
Sou aparentemente gentil, instável, e cheia de pretensões. Morrerei como um poeta morto por não-poetas, não renunciarei a nenhum sonho, não me resignarei a nenhuma feiura, não aceitarei nada do mundo que não tenha sido aquilo que criei por mim mesma. Eu escrevi, vivi, amei como Don Quixote, e no dia de minha morte direi: ‘Com licença, foi tudo um sonho’, e então posso encontrar alguém que dirá: ‘De modo algum, foi tudo verdade, absolutamente verdadeiro.’

— Anaïs Nin, em
The Diary of Anais Nin, Vol. 4: 1944-1947

Erik Satie - Nocturne No. 1


16 de agosto de 2016

A Lua

Confidente dos amantes
É a lua, 
no entanto, solitária e onipresente
O casal de mãos dadas na beira do cais,
Na noite estrelada, 
sonhos de outrora
De imensidão 
Bonita é a lua redonda, melancólico clarão 
Inalcançável como o amor que findou
Como o grão de areia, que da mão,
Silenciosamente escapou.

Agora há o desleixo, domina a inquietude
Onde a palavra não penetra
Onde as notas do piano são ocas.
Rosto inexpressivo
Rosto desconhecido no espelho,
Pontua amargura no coração

Ponteiro é o tormento,
O juiz em razão:
Sentencia o tempo, piedade não convém

E a lua, confidente dos amantes
É minha companheira também, 
Não deseja razão
A lua, a lua, nas longas noites de solidão.

6 de julho de 2016

Desassossego

Era uma espécie de vago desassossego, um desejo juvenil e sedento para distância, um sentimento tão vivo e tão novo ou há tanto tempo desacostumado e desaprendido, que ele, com as mãos nas costas e o olhar para o chão, parou cativado, para examinar a natureza e o objetivo da emoção.
Era o desejo de viajar, nada mais; mas verdadeiramente parecendo um acesso e intensificado até a paixão, sim, alucinação.
(...) Era um ímpeto de fugir; que confessou a si mesmo, esta saudade para a distância, para a novidade, esta ânsia por libertação, exoneração e esquecimento.

Morte em Veneza | Thomas Mann, Edição, 1971

15 de junho de 2016

Cotidiano

Resta do cotidiano,
o único e indispensável alento da poesia que renasce
depois das horas noturnas
com o sol que desponta
nas montanhas distantes e mágicas
e da garoa fina que cai no encerramento da
branda tarde
no ligeiro toque das mãos para proteger o chápeu
e da pluma que, insistentemente o vento leva
branda é a tarde,
tão branda como uma Gnossienne de Satie

Canção do suicida

Só mais um momento
que voltem sempre a cortar-me
a corda
Há pouco estava tão preparado
e havia já um pouco de eternidade
nas minhas entranhas

Estendem-me a colher,
esta colher de vida.
Não, quero e já não quero,
deixem-me vomitar sobre mim.

Sei que a vida é boa
e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue,
a mim só me sobe à cabeça.

Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;
compreendei que há quem a despreze
Durante pelo menos mil anos
preciso agora fazer dieta.


Rainer Maria Rilke
Tradução Augusto de Campos

14 de junho de 2016

Cerimônia do Adeus

A respiração displicente, o riso dos amantes,
embriagados de vinho tinto
sobre a mesa antiquada de madeira e nos bulevares parisienses,
e nas gôndolas em Veneza
―  o céu azul veludoso, o vinho quente, a doce sensualidade
que a tanto, seduzira Thomas Mann
exala a verniz, memória está, não aniquilada
o prazer em sofrer minucioso e dilacerante
como o tremular da lua refletida na água
desse mar tão solitário, devastado em melancolia.

Sviatoslav Richter

Notas do café solitário

Nos cafés e nos bares desconhecidos
almas espelhadas refletem a inquietude da existência
nas ruas silenciosas e nos becos, nos lares
almas espelhadas refletem: o amor infindável
E a solidão infindável
está equivalente as notas de um piano
solidão não-palpável, ainda sim
traiçoeira e dilacerante
Como o tempo, adágio ressoa
E a beleza fere como espinhos de rosas.

Nasce o poema

Há quem pense
que sabe
como deve ser o poema
eu
mal sei
como gostaria que ele fosse

porque eu mudo
o mundo muda
e a poesia irrompe
donde menos se espera (...)

Ferreira Gullar, Barulhos

Ode à rebeldia

A poesia quando chega
não bate à porta
não obedece regras, salta do peito e faz alvoroço
naturalmente,
desesperadamente
por isso é tão leal
estraçalha o peito arfante 
vira do avesso a alma, enebria de emoções.

4 de junho de 2016

Ausência

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
pra que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta
O mar ao que se afunda.

Jorge Luís Borges, Fervor de Buenos Aires 
Obra completas 1923-1949, vol. 1

Distância

É necessário a distância do ser
distância de tempo e espaço
para reconhecer todas as minúsculas falhas e desencontros
todos os caminhos percorridos até então,
da estrada
Está  chamada vida!

Ruas de memórias aliadas pela saudade
pedras e pó da solidão dos dias, do penar das horas
na terra pesada e crua,
no entanto a pele nua e sedenta procura abrigo
Como amantes procuram calor
nos corpos entrelaçados na noite escura,
Como uma criança procura os braços maternos
ás horas tempestuosas e aflitas

Outras estradas reservam jardins floridos
fartos e prósperos 
e imensos de alegria e ternura
Está  chamada vida!

3 de junho de 2016

Trópico de Câncer

Se aqui se revela uma capacidade de escandalizar, de assustar os sem-vida, fazendo-os sair de sua profunda sonolência, congratulemo-nos conosco mesmos; pois a tragédia de nosso mundo é precisamente a de nada mais ser capaz de despertá-lo da letargia. Não mais sonhos violentos, nenhum revigoramento, nenhum despertar. Na anestesia produzida pelo autoconhecimento, a vida está passando, a arte está passando, fugindo de nós: estamos vagando com o tempo e nossa luta é contra sombras. Precisamos de uma transfusão de sangue.

Trecho de Anais Nin sobre Trópico de Câncer, de Henry Miller

2 de junho de 2016

Jean-Paul Sartre, A Náusea


Violette Leduc

Meu caso não é único: tenho medo de morrer e sinto-me aflita por estar no mundo. Nunca trabalhei. Nunca estudei. Chorei e gritei. As lágrimas e os gritos tomaram muito do meu tempo. 
Pensar no tempo perdido é uma tortura. Não sou capaz de pensar longamente, mas posso deleitar-me na contemplação de uma folha de alface murcha, onde não tenho remorsos para ruminar. O passado não nos alimenta.
Partirei tal como cheguei, intacta, carregada de todos os defeitos que me torturaram. Gostaria de ter nascido estátua, mas não passo de uma lesma debaixo da minha estrumeira. As qualidades, as virtudes, a coragem, a meditação, a cultura. De braços cruzados, esfacelei-me contra essas palavras.


Violette Leduc | Autora de La bâtardeThérèse et Isabelle


Entrevemos um mundo cheio de tumulto e arrebatamento, onde o amor muitas vezes toma o nome de ódio, onde a ciência de viver não raro se expande em gritos de desespero; mundo que a solidão devastou e parece árido ao longe. Mas não é. Sou um deserto que fala sozinho, escreveu-me Violette Leduc um dia, numa carta. Pois encontrei nesse deserto inúmeras belezas. Além disso, os que vêem falar-nos do fundo da sua solidão de nós falam (...)
Por mais mundano ou combativo que seja, todo o homem tem subterrâneos onde ninguém ousa penetrar, nem mesmo ele; mas que existem: a noite da infância, os desaires, as renúncias, a súbita comoção de uma nuvem em pleno céu. Surpreender uma paisagem, um ser, tal como existem na nossa ausência: sonho impossível que acalentamos todos.

Simone de Beauvoir |Sobre obra de Violette Leduc

11 de maio de 2016

O destino é como o vento

No entanto, a alma adoece, com tudo aquilo que a mão não alcança
que os olhos não vêem,
tudo que emoções não permeiam e realizam
juvenil é seu rosto,mas sua alma esta, que sente o peso dos séculos
desmorona, o tempo acusa e dá a sentença:
tudo que é efêmero pode ser tomado como tormento ou paz.

7 de maio de 2016

Tormenta e Glória

Paris é um festa alertava, Ernest Hemingway,
no espaço entre sua tormenta e glória
tristeza faz moradia em qualquer lugar num buraco fétido
ou no castelo monumental
o diamante não tem brilho algum e o valor fez-se inútil
a tristeza está na alma,
mil anos na miséria compensariam mais
quando o amor é que reina
concluo então,
que algumas taças de vinho na solidão são mais eficientes
do que o confronto mórbido com a realidade
e o tempo.
Felicidade é tal como um vaga-lume
ilumina e apaga,
tal como os breves momentos de encorajamento e vigor
tal como essa mesma ilusão que como uma linha
tênue me pendura
entre a sobriedade e a loucura
sem amor a coroa torna-se insignificante para o rei.

Dos Rios para o Mar


Liberdade

Por vezes, à beira-mar, no perpétuo movimento das águas e no eterno fugir do vento, sinto o desafio que a eternidade me lança. Pergunto-me então o que vem a ser o tempo, e descubro que não passa do consolo que nos resta por não durarmos sempre.
Que é do mar se os rios se recusam? Estou, afinal, perto do mar e da sua ciência. Ninguém pode exigir ao mar que traga todos os barcos, ou ao vento que encha todas as velas. 

Tem confiançaa noite não é mais que um momento de trevas entre dois dias.

Stig Dagerman  | Em a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer

6 de maio de 2016

Intempérie

Na busca incessante de sentido
o tempo corre desenfreado,
ponteiros giram absolutos
a vida passa, gasta como as solas dos sapatos
o corpo repousa

O tempo não tem a mesma permissão
assim caminha a tempestade, em seu regresso
que logo reina
a náusea da monotonia
distante o sol desponta em outro canto, são outros sonhos
outras vidas.

E eu permaneço no café da cidade
contemplando as marcas de suor nas vidraças
e as mãos estendidas nas folhas em branco
fitando o indecifrável, na solidão
com a súbita vontade de andar sem rumo
por estradas sem fim.

28 de abril de 2016

Poética da métrica

Dou-me a vasta permissão de errar
e inventar palavras desconexas
dou-me a permissão de escrever sem regras e rimas
a permissão de buscar incansavelmente a dor e o prazer
e procurar por inesgotáveis fontes de alegrias
de provar do veneno
do amargo e do açúcar dos cafés, dos bares,
dos lugares e mares
ouso a recusar o que é mecânico e ensaiado.
a natureza e a liberdade é tudo o que há 
de mais próximo que verdade.

27 de abril de 2016

Tonio Kröger

(...) Enquanto eu fico deitado na areia, ocioso e perdido, de olhar fixo para o misterioso e mutável jogo de expressão que desliza sobre a face do mar.

Tonio Kroger. Thomas Mann1ª Edição, Abril Cultural, 1971

Oslo, August 31st






25 de abril de 2016

La Musique

A música para mim tem seduções de oceano! 
Quantas vezes procuro navegar, 
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano, 
Minha pálida estrela a demandar! 

O peito saliente, os pulmões distendidos 
Como o rijo velame d'um navio, 
Intento desvendar os reinos escondidos 
Sob o manto da noite escuro e frio; 

Sinto vibrar em mim todas as comoções 
D'um navio que sulca o vasto mar; 
Chuvas temporais, ciclones, convulsões 

Conseguem a minh'alma acalentar. 
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera, 
Que desespero horrível me exaspera!

Charles Baudelaire


14 de abril de 2016

Melancolia

Há uma melancolia que jamais me abandona
ás vezes, sorrateira procura distrair-se,
ainda que permaneça em seus resquícios
a felicidade reina
em dois passos novamente bate a porta
e instala-se com suas malas absortas de temores, saudades,
lamentações e cansaço,
carregando todo o peso de uma vida.

Tonio Kroeger

Veja, senhor, aquelas estrelas. Ali estão elas brilhando, por Deus, o céu está repleto delas. Agora peço-lhe, quando se olha para cima e se pense que muitas delas dizem ser cem vezes maiores que o mundo, como é que a gente se sente? Nós, homens, inventamos o telégrafo e o telefone e tantas outras aquisições da era moderna, sim, isto fizemos. Mas quando olhamos para cima é preciso reconhecer e compreender que, no fundo, somos uns vermes, vermes miseráveis e nada mais. Respondeu a si mesmo e acenou com a cabeça, humilde e abatido para o firmamento.

Tonio KrogerThomas Mann1ª Edição, 1971

No lo leas ahora


Y no me ves…
ni sabes que voy yo…
pero yo voy… mi mano… 
en mi otra mano… 
y tan contenta
porque voy a tu lado.
Margarita Gil Roësset, nota do diário para Juan Ramón Jiménez

7 de abril de 2016

Prelúdio

Onde existe a beleza incomparável da alma e do corpo
Existe o desejo irreprimível da natureza humana
Tudo o que a difere de todas as outras

A forma como move os lábios quando sorri
ou como soa a voz, pacifica e serena pela manhã
o modo como move as pernas quando impaciente
depois de ordenar as teclas do piano
como debruça na janela ao entardecer
e demostra com veemência a mentalidade madura
para compensar o ar infantil e frágil
convicta de suas escolhas

Repara nos detalhes e na forma como ajeita a gravata
do homem que agora lhe beija com desprezo
o mesmo que em outrora cantava
canções ao pé do ouvido nas madrugadas insólitas
tudo o que a difere de todas as outras.

6 de abril de 2016

Seção cinematográfica

Algumas vezes na vida tive momentos de absoluta clareza, 
nesses momentos por alguns 
breves segundos o silêncio abafa o barulho. 
E eu posso sentir, em vez de pensar. 
E as coisas parecem tão claras, e mundo parece tão revigorante. 
É como se surgisse uma nova ordem, não posso fazer com que tais 
momentos perdurem. 
Eu me agarro a eles, mas como tudo eles se dissipam.
Eu vivi desses momentos, eles me trazem ao presente. 
E eu me dou conta, 
de que tudo está exatamente como deveria estar.

A Single Man, 2009
Baseado no livro homônimo de Christopher Isherwood



2 de abril de 2016

Seção poética

Agora vamos alcançar tudo
o que não podemos amar na vida
com o estrelar das noites inumeráveis.
Ressuscita-me, ressucita-me ainda que mais não seja 
por que sou poeta e ansiava o futuro.
Ressuscita-me lutando contra as misérias do cotidiano.
Ressuscita-me, por isso ressuscita-me. 
Quero acabar de viver o que me cabe, minha vida, 
para que não mais existam amores servis. 
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se por uma casa, um buraco. 
Ressuscita-me para que a partir de hoje, 
a partir de hoje, a família se transforme 
e o pai seja pelo menos o universo
e a mãe seja no mínimo a terra.

Trecho do poema Amor de Vladimir Maiakovski adaptado.
Versão Completa e Poema Recitado 

Seção cinematográfica

















Un Homme Qui Dort, Dir. Bernard Queysanne, 1974
Baseado no livro homônimo de Georges Perec

26 de março de 2016

Epifania do Adeus

Onde há o brilho e a lembrança
de uma lembrança
de um sorriso, ali está
El secreto de
sus ojos
onde há luz, memória e sombra
ali está
El secreto de
sus ojos
Onde há o toque exímio dos dedos
no rosto suave
e nas notas de um piano
a mesma mão que acena um adeus
ali, há vida
em todo seu equívoco e plenitude.

Seção poética

Amo as horas noturnas do meu ser em
que se me aprofundam os sentidos
nelas fui eu achar, como em cartas velhíssimas,
já vivida a vida dos meus dias
e como lenda longínqua e superada.
Delas eu aprendi que tenho espaço
para uma segunda vida, vasta e sem tempo.

E por vezes me sinto como a árvore

que, madura e rumorosa, sobre uma campa
realiza o sonho que o menino foi
(em volta do qual apertam suas raízes quentes)
e perdeu em tristezas e canções.

Rainer Maria Rilke em Poemas, As elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu. 
Tradução Paulo Quintela.



O consolo

Proclama em voz alta na solidão, no marasmo da noite
tudo aquilo
que te faz sorrir
proclama em voz alta contra os muros do pensamento
muros sombrios 
proclama o amor que arde no peito e o que eleva os sentidos 
proclama até que baste o ar e a poesia:
desespero haverá de findar.