26 de novembro de 2014

Tudo que fica, tudo que esvai

O suéter em cima da cama bagunçada
gravatas espalhadas pelo chão
cama em que o amor posou, repousou
mentiras afiadas, dignidade desfeita
o rosto de expressão séria, entretanto delicada
o toque no cabelo escuro, aparente segurança
de ter em mãos
dentro de si, a insegurança
e os temores do mundo,
agrava o possessivo e eloquente
A música antiga ainda toca:
As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões.

21 de novembro de 2014

Retrato Póstumo

Escrevo para desnudar a alma
Para contar uma ou outra noite solitária
Num quarto pouco iluminado
Para expor toda mágoa e todo desejo
Não de uma forma inanimada, profana
O retrato póstumo de Oscar Wilde na parede
Empoeirada, intrigante é a aparência 
Pele e movimentos sutis
Roupas e mentalidade dos ancestrais
Ar entre aspecto
Tal desvario, não dito o ritmo



17 de novembro de 2014

Vida e glória - Devaneio de duas páginas

Virginia Wolf contempla o rio Ouse
E entre as ruas, algum personagem de Dostoiévski
caminha abalado
No barco embriagado
Algum poeta visionário como Rimbaud
Permanece extasiado pela vida
Beethoven ou Schumann continuam na iminência da loucura
Chopin eternizando na perfeição e sensibilidade de cada nota 
Na noite, um boêmio como Henry Miller
Abraça Paris com todo seu desleixo e rebeldia
Até mesmo Hemingway
Vivia na miséria, mas como um rei
Pelo café de flore vago com Sartre e Beauvoir
Discutindo toda a existência 
Não, não ousaria, Anais Nin
Com toda sua coragem e força
Nem Van Gogh com todo seu talento e fracasso
Os ecos de Camille Claudel clamando por Rodin ainda soam
Mártires do próprio tempo, loucos e boêmios
Poetas, profetas, profanos e santos
A gloria está em saborear a vida com todos os talheres.

4 de novembro de 2014

Do universo


E dos campos vastos e floridos
das canções
das vielas e das escadas monumentais
das corujas que resmungam
das torres e pontes
dos cafés e catedrais
tudo que é inconcebível diante das formas de amar
são essas as lembranças ancestrais
por séculos e séculos
a pergunta continua a mesma
é a sublime luz que se alterna
é o sol que queima a pele e destaca olhos misteriosos
de uma serena criança
é a paciência de uma sabia senhora
é o desespero do jovem cujo futuro é uma incógnita
é do sorriso intocável e das lágrimas corriqueiras
tudo é inconcebível diante das formas de amar

29 de outubro de 2014

Interlúdio

A madrugada nascente
tão fugaz
que devora os amores
guiados por desejo e fúria
ressoa a musica ao fundo
corpos que colidem
entram em comunhão
pedaço por pedaço
pele por pele
boca por boca
toque por toque
por fim o
desejo - consumado
o destilar de todos os sabores e emoções.

28 de setembro de 2014

Trovador

Por entre as vidraças cai a chuva
como lagrimas e sussurros
incautos
se decifra a voz que proclama
toda as horas
do amor inconfundível
e das tristezas em canções 
como um solitário trovador
por fim prevalesse a alegria
os abraços e sonhos delirantemente compartilhados
em noites estreladas
por breve o
sol que ilumina um céu flamejante
felicidade que se instaura em corações
sensíveis e unidos
e da austeridade das chamas
nada detém, nem deterá
o sentimento
intacto no tempo.


Céu estrelado

E a visão é de um céu estrelado 
como num quadro de van gogh
E a melodia é precisa
como num disco de Jobim
E o luar é solitário
como um coração de poeta boêmio
que a noite pertence.



1 de setembro de 2014

Como nossos pais

O silêncio só faz eco na consciência
e a solidão só pesa nos escombros dos cais
a voz impecável, afinada encanta
e a alma sensível de uma mulher canta
a dor e o prazer de uma juventude
a renuncia e a gloria de uma vida


20 de agosto de 2014

Aleatório Tardar

Mãos pálidas
Barulho na rua, o cão ladra, os carros passam
A xícara de café forte, vicio sinuoso
Sem cigarros para complementar qualquer dose
A casa laranjada que não é minha
A porta marrom do quarto, o trinco dourado.


16 de agosto de 2014

Síntese

O amor tem seus paraísos 
devastadores e seus infernos particulares
o amor tem suas dadivas ofuscantes
e seus fatigantes efeitos colaterais.

6 de agosto de 2014

Ouro sob a luz do sol

O milagre 
está em cada manhã
onde os pássaros rondam
onde as flores brotam
até mesmo onde o céu é cinzento e monótono
onde há mar e ar
o milagre é o tempo
onde a vida é celebrada
como ouro sob a luz do sol.

25 de julho de 2014

O medo do ridículo

O medo do ridículo é um medo infundado 
Não é necessário esconder o ridículo do ser, de cada ser, do simplesmente ser 
Só quem mostra sem mascaras progride com a dignidade
No fundo as almas são todas iguais
No fundo os receios são todos em vão
No fundo há vida, mas há também a falsa impressão de que é tão rasa
No fundo o equilíbrio é o segredo
No fundo uma dose pequena de loucura é fundamental.

22 de julho de 2014

Das coisas da vida

Da vida não carrego as coisas levianas
Tão pouco as amarguras da solidão
Levo a paisagem, os bosques
A serenidade
A natureza sublime que se alterna
Entre as coisas divinas
Levo os gestos discretos
A gargalhada escancarada
Os olhares inquietos
Levo os abraços acolhedores
E as mãos que tateiam por amor
Levo a visão de uma jovem vagando
O azul, cor de mar
Ou o céu de estrelas prateadas
E levo até o trem, a fumaça
Levo os musgos e as fontes
Levo o belo de cada ser

Em uma praia deserta
Os pés na areia
Como um quadro de Van Gogh
O sorriso espontâneo de uma criança
O afeto de uma mãe e de um filho

Camuflar

Vou me camuflando em melancolia
no mundo que desconheço,
nas pausas do meu silêncio.

Poesia

A alma inquieta,
se manifesta na poesia
nas entrelinhas das palavras
que sussurram cordialmente
o eco da vida.

Van Gogh

Coração de artista
É um rabisco inquieto
Ora calmo
Ora intempestivo
Das veias que correm
Da linha reta
Van gogh corta a orelha
E o surto de poesia inicia
Sonhos infernais
Resquícios de outrora
Herdei dos ancestrais
Das noites em ópio
E dos sorrisos intocados
Nas dores irreparáveis do tempo

Madrugada

A madrugada é como
um corredor vazio
onde nossos pensamentos
fazem eco.


Vulnerável

Ás vezes a maré sobe
ás vezes o barco não vai
ás vezes o rio é para peixe
ás vezes é a chuva que cai
assim é a vida
tempestade e sol
porto e cais
nem só de meio-termo
nem só de coisas banais.

18 de junho de 2014

Afeto

O afeto
Que vai além das explicações
E das palavras
Que sobrevive no tempo
E que a alma abriga
Mas o silencio abafa
Camufla a melancolia
O afeto
A paz em um coração sensível
O desejo carnal
Ou o carinho quase fraternal
O amor genuíno
Que faz os laços dessa
E de outras vidas
Perpetuarem.

16 de junho de 2014

Consolidação

O mundo ganha forma e força
Quando desfrutamos dos prazeres da vida
Como ver um por do sol
Ou ouvir o barulho da chuva num fim de tarde
Como caminhar descalça à beira-mar
Em contato com a areia

Como conhecer pessoas e lugares
Redescobrir canções do passado
E sentir a nostalgia gritante
O tempo é a consolidação da alma.

14 de fevereiro de 2014

Drunk On The Moon

Do lado de fora do bar
um homem de aparência bruta
terno sujo, chapéu-coco
fumaça no ar, música blues
entre cada nota de piano
ressoa o saxofone
charuto e bebida forte
selvagem na rua
deriva da meia-noite
como um bêbado a bailar na lua
(Breve poema sobre Tom Waits)

11 de fevereiro de 2014

Canção da meia-noite

A canção da noite
ressoa no quarto escuro
os ponteiros correm
tuas mãos percorrem
o corpo nú
vastos de amor
e de poesia protegidos do desalento e da miséria
dos dias.

5 de fevereiro de 2014

Seção cinematográfica

Olhe para eles... 
Parecem-lhe minimamente interessados 
nos benefícios da loucura? 
Leu aquilo que disse Adorno a propósito da Fantasia
em Dó Maior de Schumann? 

Fala do seu crepúsculo. 
Não de Schumann antes de enlouquecer,
mas do Schumann antes desse. 
Uma fracção de tempo antes. 

Ele sabia bem que estava
prestes a enlouquecer; 
sentia-o no seu âmago,
mas fez um esforço derradeiro. 

É o momento em que nos apercebemos
de que vamos perder o juízo, 
antes que este se vá de vez.

(...)

Schubert e Schumann
são os meus pianistas preferidos. 

Além disso, o meu pai morreu doido
varrido no manicômio de Steinhof, 
portanto é-me fácil falar
do crepúsculo do espírito, não acha?

La Pianiste, Michael Haneke (2001)




4 de fevereiro de 2014

O abandono

Cinzento sacrilégio
nas flores mortas,opacas, 
galhos entrelaçados
nas arvores tenebrosas
a criança abandonada pelo rígido pai
implora,
lágrima aos olhos
intolerável é o suplicio da inocência.

Efêmera

Na ilusão de que tudo seja-me fiel
enalteço corações
mas choro retendo saudades
no leito, em ócio
num quarto fétido
a morte lenta e sórdida consome
os olhos, a voz, a mente, o corpo
gosto de veneno, torpe, derradeira evasão.

Eco

O eco do trovão
ruídos e conversas alheias
no fim da estreita rua
aos berros homens asquerosos
embriagados de gim e absinto
de uma vida regada a haxixe
e prazeres ilusórios
lá fora crianças brindam a inocência
com risos frouxos e despreocupados
eu na solidão de um quarto pouco iluminado
brinco com a sorte
que ironia é envelhecer.

Solidão

Águas vivas dançam,
nas praças e conchas brancas
sem vida sombria, sem inquietude
há beleza na tristeza, mas não aqui
agarro-me ao reino da solidão
faço dela uma arma para criação
o peso da vida é o grande desafio.

A canção da torre alta

O barco ébrio, 
as vielas abandonadas e sombrias
os cães ladram na noite ociosa
a coruja solitária resmunga entre ruídos
abrindo as portas da percepção
e no fim da rua estreita
abriga a canção da torre mais alta.

1 de fevereiro de 2014

A valsa

Na fumaça do cigarro 
e no gole derradeiro de café
tento encontrar-te 
abafando os suspiros 
por entre passos aleatórios
giro em torno das pálpebras
na busca incessante de ar e vida
dançante
nos pés a valsa 
depois o último tango na noite ébria.


6 de janeiro de 2014

Verlaine

Então aqui nessa paisagem
Ofereço-lhe uma escolha arquetípica
A escolha entre meu corpo e minha alma
De anos de escórias, desejos e pobreza
Os impulsos 
Demostram a total brutalidade na sua fraqueza
O vinho enaltece seu poder
E seu lado abominável 
O asco derradeiro 
Uma vida de poesia e prazeres
De arrependimentos escrupulosos
Vicio sinuoso 
Eternizando juntos palavras no eco do mundo
O amor e a luxuria não são tão distintos
Grande e radioso pecado
A eternidade é um sol misturado com o mar

5 de janeiro de 2014

25th Floor

É noite
O jazz ressoa na melancolia de um apartamento
25th Floor, um quarto escuro
A fumaça no ar
Resquícios, ruido, fadiga
Uma porta bateu
Giro nos braços
Fitou o sorriso de uma doce criatura
Fitou o luar
Não há pássaros
Não há catedral
Lago ou ferrugens
Há um relógio
Lembra que o tempo corre
E abafa meus passos.