5 de fevereiro de 2014

Seção cinematográfica

Olhe para eles... 
Parecem-lhe minimamente interessados 
nos benefícios da loucura? 
Leu aquilo que disse Adorno a propósito da Fantasia
em Dó Maior de Schumann? 

Fala do seu crepúsculo. 
Não de Schumann antes de enlouquecer,
mas do Schumann antes desse. 
Uma fracção de tempo antes. 

Ele sabia bem que estava
prestes a enlouquecer; 
sentia-o no seu âmago,
mas fez um esforço derradeiro. 

É o momento em que nos apercebemos
de que vamos perder o juízo, 
antes que este se vá de vez.

(...)

Schubert e Schumann
são os meus pianistas preferidos. 

Além disso, o meu pai morreu doido
varrido no manicômio de Steinhof, 
portanto é-me fácil falar
do crepúsculo do espírito, não acha?

La Pianiste, Michael Haneke (2001)




4 de fevereiro de 2014

O abandono

Cinzento sacrilégio
nas flores mortas,opacas, 
galhos entrelaçados
nas arvores tenebrosas
a criança abandonada pelo rígido pai
implora,
lágrima aos olhos
intolerável é o suplicio da inocência.

Efêmera

Na ilusão de que tudo seja-me fiel
enalteço corações
mas choro retendo saudades
no leito, em ócio
num quarto fétido
a morte lenta e sórdida consome
os olhos, a voz, a mente, o corpo
gosto de veneno, torpe, derradeira evasão.

Eco

O eco do trovão
ruídos e conversas alheias
no fim da estreita rua
aos berros homens asquerosos
embriagados de gim e absinto
de uma vida regada a haxixe
e prazeres ilusórios
lá fora crianças brindam a inocência
com risos frouxos e despreocupados
eu na solidão de um quarto pouco iluminado
brinco com a sorte
que ironia é envelhecer.

Solidão

Águas vivas dançam,
nas praças e conchas brancas
sem vida sombria, sem inquietude
há beleza na tristeza, mas não aqui
agarro-me ao reino da solidão
faço dela uma arma para criação
o peso da vida é o grande desafio.

A canção da torre alta

O barco ébrio, 
as vielas abandonadas e sombrias
os cães ladram na noite ociosa
a coruja solitária resmunga entre ruídos
abrindo as portas da percepção
e no fim da rua estreita
abriga a canção da torre mais alta.