18 de dezembro de 2015

Deserto

Há sempre o desespero pungente
aquele de agarrar a vida com as mãos
livra-nos da sensação de angústia
Da perda e do vazio que o tempo constrói e corroí
livra-nos da sensação do punhado de areia
que escorre entre os dedos.

Poema de Herberto Hélder


9 de dezembro de 2015

Dos prazeres da vida

Na vidraça das janelas, no estalar dos dedos
no enigmático olhar,
no convincente palavreado
nas abandonadas vielas,
nas crenças mais desmedidas
no folhear das páginas dos livros mais antigos
e empoeirados da biblioteca, na brandura do vento
e do tempo
eis que tú ali estás.

Do desejo

Tal ordem, tal forma,
tal circunstância
irada e obsessiva, obscena
tal qual o desejo de Hilda Hilst
louca e santa
tal qual o poema de Adélia Prado
anjo esbelto transfigura-te
faminto é o desejo
desejo de vida, pungente é a vontade.

2 de dezembro de 2015

Embriagai-vos

Aproximo-te, do que embriaga, do que apaixona
do que alucina,
Aproxima-te, da loucura, da liberdade
do desejo mais fugaz, melhor destilar das emoções
que morrer do ócio.

1 de dezembro de 2015

Esfinge

Há sempre o mistério
aquele que aguça os sentidos
há sempre a vaidade,
entrelaçada com a luxúria
há sempre o poder na boca da ganância
sutis são os gestos
discretas são as palavras, ainda que vis
são como ilusões de ótica
como truques mágicos de circo
impecavelmente elaborados
há sempre a luz e a escuridão
e perigosa é a forma,
aquela que aguça os sentidos
sublime é a forma
como uma sinfonia de Bethoveen
ou uma suíte de Bach
aquela que aguça os sentidos
cega é a aparência, perigosa é a forma
como uma pintura de Dante
há sempre a liberdade
e a escolha que não pesa,
nem sufoca
como a consciência limpa
mais leve e macia que qualquer travesseiro.

23 de novembro de 2015

22 de novembro de 2015

Palpável

Na imagem trêmula, na nudez da alma
nos gestos mais sutis, imperceptíveis,
é você que vejo, na paz dos casais que caminham
no fim de uma tarde
você nos pássaros do céu azul, nas folhas no vento
na areia minuciosa da praia
é você que vejo na mulher solitária em uma noite chuvosa
na boemia, despretensiosa, sorridente
é você que vejo nas teclas empoeiradas de um piano
é você que vejo no prazer e na dor do esquecimento
é você que vejo na desconhecida e na familiar 
é você no desvencilhar-se do tempo
no desvencilhar-se dos corpos
e quando os sonhos adormecem e os olhos despertam
ordenados pela manhã que inicia
percebo que nenhum abraço é mais acalento
no entanto, é você que vejo.

Epílogo


26 de outubro de 2015

Milk And Honey

Há serenidade na manhã, no pôr do sol,
nos formatos discretos das nuvens
tão íntimo como a mão que toca um rosto familiar
tão intimo como a xícara de café compartilhada
íntimo como o sorriso depois do beijo afetuoso
há serenidade na manhã,
na velha canção que toca numa vitrola empoeirada
há serenidade no tempo e em suas marcas.

18 de setembro de 2015

Nostalgia

Dos olhos fardos, a última lágrima escorrendo
a boca que pronuncia seu último adeus
a lembrança do sorriso descrente
e das madrugadas relutantes em claro
o jardim verde na beira da estrada, tulipas e margaridas
lilás sempre foi minha cor favorita,
talvez, o desejo de resgatar os momentos de sol
nos cabelos desgrenhados, a brisa das manhãs
os abraços acolhedores e reconfortantes
talvez, a dor no peito arfante
o adeus das bocas úmidas, antes tão caladas
que agora murmuram, discretas, por eternidade.

Automat por Hopper

Do outro lado da rua, a fresta, o ruído
inofensivo olhar para um transeunte
jogo de sedução que se inicia no silêncio
na sutileza de uma solitária mulher em um café
de uma cidade inóspita.

10 de setembro de 2015

Das flores

Da estreita janela
o vento brando sopra
céu cinza, céu azul
céu, sol
neblina na paisagem
da estreita janela tudo se vê
tudo se sonha
poesia é como flor
brota
é gotas de chuva que escorrem como lágrimas em pétalas.

Das nuvens

Infinito
o azul pertence ao céu
assim como o céu pertence as nuvens
infinito
escreve-se no ar, infinito como a bruma diante do mar.

29 de agosto de 2015

Silêncio das Estrelas

Pássaros cantam ao amanhecer
celebrando um novo dia
e no anoitecer
existe um olhar singelo e inquieto como de uma criança
no espelho
existe uma luz que pouca gente vê
e segredos que jamais serão revelados
enquanto o mundo gira, a eternidade ganha eco.

21 de julho de 2015

Poema (sem rimas)

Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo
                            de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água que corre quando
                             o chão é inclinado,
E minha poesia é natural como
                             o levantar-se vento…

Fernando Pessoa, De Poemas de Alberto Caeiro

22 de junho de 2015

Da frieza

Corpos usados como bibelôs, decorativos objetos
sentimentos renegados, volúpia a mercê.
Tudo á margem das circunstâncias reféns de suas próprias fragilidades,
ainda que ocultas pelo orgulho.

24 de maio de 2015

Luz

Há paz no cantar dos pássaros ao amanhecer, nos jardins verdes e na sutileza do vento.