11 de dezembro de 2016

O adeus

Ás vezes é um adeus cerimonioso, 
do brotar de uma lágrima
Noutro um sorriso tímido e discreto da moça branca
como a neve
Às vezes é um adeus traiçoeiro em plena luz do dia
que transforma nosso mundo em tempestade
As vezes é aquela palavra engasgada na garganta
Que teimamos em não dizer
E fica, fica, fica assim por dizer
Num dia qualquer, amarga na solidão, no pesar do tempo
E no tiquetaquear do ponteiros
O adeus é sempre um punhal cravado no peito
E irremediável é a saudade.

Em Homenagem a Ferreira Gullar 1930 - 2016

10 de dezembro de 2016

Johnny Cash - Hurt


If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

Escre ver-me

Nunca escrevi 

sou 
apenas um tradutor de silêncios 

a vida 
tatuou-me os olhos 
janelas 
em que me transcrevo e apago 

sou 
um soldado 
que se apaixona 
pelo inimigo que vai matar.

Mia Couto
Raiz de orvalho e outros poemas

18 de outubro de 2016

A mão e a luva

Fechando o punho, coração a toda prova, 
A palpitar, nas noites tenebrosas dos amores febris
Cada adeus é um golpe, punhal cravado no peito
O amor é traiçoeiro assim como as paixões
assim como a solidão
Contemplo tanto o abismo, como a exaltação

Uma canção familiar, um sorriso negligente
uma carta antiga com caligrafia desleixada
o aroma das flores de outono, o perfume tão peculiar

As mãos que jamais tocaram o rosto vulnerável
destacados por olhos melancólicos e indomáveis
os pés que jamais tocaram a areia, o mar
o sonho desfeito, perigosa recordação
é o suficiente para rasgar um coração
o suficiente para fazer o mais severo dos homens desmoronar.

16 de outubro de 2016

O sol também se levanta

O gesto polido, elegante, de afável ternura
Jamais fadado a trivialidade
Contempla a embriaguez do mesmo vinho, 
Das mesmas cores
Olhos  melancólicos de tão azuis,
Mirava o céu
Cor de mar, mar que afaga, mar que devora
Mar que repele
O sol também se levanta
Mesmo quando tudo parecer findar
E o amor desmorona na luz do dia
O sol também se levanta
Eis o acalento, o determinante consolo.

28 de setembro de 2016

Talvez seja só silêncio

Só o amor ressuscita  
quando os olhos não alcançam a luz
quando o corpo exausto não encontra abrigo 
nos braços de ternura e alma parece definhar
quando os caminhos parecem indizíveis e a jornada intolerável
quando todos os gestos e sonhos
antes tão ávidos parecem superficiais
quando a beleza torna-se opressora
e nem o vinho e o sangue nas veias, bastam
só o amor ressuscita um coração cambaleante
ou talvez o silêncio. 

27 de setembro de 2016

Transparente escuridão

Nem lágrimas, nem flores, nem amores brutos
nem excessos, bebidas fortes e nem o alento do outono
céu e luar, despedidas dilacerantes
nada distraí essa monotonia do ritual dos dias 
ás vezes me deixo levar 
por alguma rua sem fim,
ás vezes me atiro de algum abismo, de um penhasco
na espera de que alguma coisa dentro de mim
renasça
e a coragem sempre me traí. 

5 de setembro de 2016

Esquecimento e Reinventar-se

E também não basta ter recordações. É preciso saber esquecê-las, quando são muitas, e esperar que retornem por si. Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa hora muito rara brote no meio delas a primeira palavra de um poema.

Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge

Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegasse a seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros.

Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta

18 de agosto de 2016

A eternidade e um dia

Amanhã, o que é o amanhã? 
Uma vez te perguntei quanto tempo dura o amanhã e você respondeu: uma eternidade e um dia.
Theo Angelopoulos, 1998






17 de agosto de 2016

Anais Nin

Em dezembro de 1946, Leo Lerman, editor de uma revista, pediu a Anaïs Nin que escrevesse uma curta autobiografia para a publicação. Ela declinou o convite com uma carta, completa aqui: https://raiar.wordpress.com/tag/anais-nin/

Eu me vejo e a minha vida a cada dia de um modo diferente. O que eu posso dizer? Os fatos mentem. Tenho sido Don Quixote, sempre criando um mundo por conta própria. Eu sou todas as mulheres nas novelas, e ainda assim sou outra que não está nas novelas. Levei mais de sessenta volumes de diário até agora para contar sobre minha vida. Como Oscar Wilde, coloquei apenas minha arte em meu trabalho e meu gênio em minha vida. Minha vida não é possível de contar. Eu mudo a cada dia, mudo meus padrões, meus conceitos, minhas interpretações. Sou uma série de humores e sensações. Atuo em mil papéis. Choramingo quando percebo que outras pessoas estão atuando neles por mim. Meu verdadeiro eu é desconhecido. Meu trabalho é meramente uma essência dessa vasta e profunda aventura. Eu crio um mito e uma lenda, uma mentira, um conto de fadas, um mundo mágico, que colapsa todo dia e me faz sentir como se estivesse indo à la Virginia Woolf. Eu tentei não ser neurótica, não romântica, não destrutiva, mas posso ser tudo isso disfarçado.

É impossível fazer meu retrato por causa de minha mobilidade. Não sou fotogênica por causa de minha mobilidade. Paz, serenidade e integração são desconhecidos meus. Meu clima familiar é a ansiedade. Eu escrevo enquanto respiro, naturalmente, fluidamente, espontaneamente, a partir de um transbordamento, não como um substituto para a vida. Estou mais interessada em fazer amor do que em escrever. Mais interessada em me tornar uma obra de arte do que em criar uma. Sou mais interessante do que aquilo que escrevo. Acima de tudo, tenho o dom do relacionamento. Eu não tenho confiança em mim mesma e grande confiança nos outros. Preciso de amor mais do que de comida. Tropeço e cometo erros, e frequentemente quero morrer. Quando eu pareço mais transparente é provavelmente quando acabei de sair do fogo. Sempre caminho para o fogo, e saio dele viva (...)

Penso que a vida é trágica, não cômica, porque não tenho desapego. Tenho sido culpada de idealização, culpada de tudo exceto desapego. Sou culpada de fabricar um mundo no qual eu possa viver e convidar outros a viver nele, mas fora dele não consigo respirar. Sou culpada de uma vida muito séria, muito grave, mas nunca de uma vida superficial. Eu tenho vivido em minhas profundezas. Minha primeira tragédia me mandou para o fundo do mar; vivo em um submarino, e muito raramente venho à superfície. Adoro costumes, a espuma da estética, noblesse oblige, e escritores poéticos. Aos quinze anos eu queria ser Joana D’arc, e depois, Don Quixote. Nunca acordei de minha familiaridade com miragens, e provavelmente terminarei em um claustro de ópio. 
Sou aparentemente gentil, instável, e cheia de pretensões. Morrerei como um poeta morto por não-poetas, não renunciarei a nenhum sonho, não me resignarei a nenhuma feiura, não aceitarei nada do mundo que não tenha sido aquilo que criei por mim mesma. Eu escrevi, vivi, amei como Don Quixote, e no dia de minha morte direi: ‘Com licença, foi tudo um sonho’, e então posso encontrar alguém que dirá: ‘De modo algum, foi tudo verdade, absolutamente verdadeiro.’

— Anaïs Nin, em
The Diary of Anais Nin, Vol. 4: 1944-1947

Erik Satie - Nocturne No. 1


16 de agosto de 2016

A Lua

Confidente dos amantes
É a lua, 
no entanto, solitária e onipresente
O casal de mãos dadas na beira do cais,
Na noite estrelada, 
sonhos de outrora
De imensidão 
Bonita é a lua redonda, melancólico clarão 
Inalcançável como o amor que findou
Como o grão de areia, que da mão,
Silenciosamente escapou.

Agora há o desleixo, domina a inquietude
Onde a palavra não penetra
Onde as notas do piano são ocas.
Rosto inexpressivo
Rosto desconhecido no espelho,
Pontua amargura no coração

Ponteiro é o tormento,
O juiz em razão:
Sentencia o tempo, piedade não convém

E a lua, confidente dos amantes
É minha companheira também, 
Não deseja razão
A lua, a lua, nas longas noites de solidão.

6 de julho de 2016

Desassossego

Era uma espécie de vago desassossego, um desejo juvenil e sedento para distância, um sentimento tão vivo e tão novo ou há tanto tempo desacostumado e desaprendido, que ele, com as mãos nas costas e o olhar para o chão, parou cativado, para examinar a natureza e o objetivo da emoção.
Era o desejo de viajar, nada mais; mas verdadeiramente parecendo um acesso e intensificado até a paixão, sim, alucinação.
(...) Era um ímpeto de fugir; que confessou a si mesmo, esta saudade para a distância, para a novidade, esta ânsia por libertação, exoneração e esquecimento.

Morte em Veneza | Thomas Mann, Edição, 1971

15 de junho de 2016

Cotidiano

Resta do cotidiano,
o único e indispensável alento da poesia que renasce
depois das horas noturnas
com o sol que desponta
nas montanhas distantes e mágicas
e da garoa fina que cai no encerramento da
branda tarde
no ligeiro toque das mãos para proteger o chápeu
e da pluma que, insistentemente o vento leva
branda é a tarde,
tão branda como uma Gnossienne de Satie

Canção do suicida

Só mais um momento
que voltem sempre a cortar-me
a corda
Há pouco estava tão preparado
e havia já um pouco de eternidade
nas minhas entranhas

Estendem-me a colher,
esta colher de vida.
Não, quero e já não quero,
deixem-me vomitar sobre mim.

Sei que a vida é boa
e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue,
a mim só me sobe à cabeça.

Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;
compreendei que há quem a despreze
Durante pelo menos mil anos
preciso agora fazer dieta.


Rainer Maria Rilke
Tradução Augusto de Campos

14 de junho de 2016

Cerimônia do Adeus

A respiração displicente, o riso dos amantes,
embriagados de vinho tinto
sobre a mesa antiquada de madeira e nos bulevares parisienses,
e nas gôndolas em Veneza
―  o céu azul veludoso, o vinho quente, a doce sensualidade
que a tanto, seduzira Thomas Mann
exala a verniz, memória está, não aniquilada
o prazer em sofrer minucioso e dilacerante
como o tremular da lua refletida na água
desse mar tão solitário, devastado em melancolia.

Sviatoslav Richter

Notas do café solitário

Nos cafés e nos bares desconhecidos
almas espelhadas refletem a inquietude da existência
nas ruas silenciosas e nos becos, nos lares
almas espelhadas refletem: o amor infindável
E a solidão infindável
está equivalente as notas de um piano
solidão não-palpável, ainda sim
traiçoeira e dilacerante
Como o tempo, adágio ressoa
E a beleza fere como espinhos de rosas.

Nasce o poema

Há quem pense
que sabe
como deve ser o poema
eu
mal sei
como gostaria que ele fosse

porque eu mudo
o mundo muda
e a poesia irrompe
donde menos se espera (...)

Ferreira Gullar, Barulhos

Ode à rebeldia

A poesia quando chega
não bate à porta
não obedece regras, salta do peito e faz alvoroço
naturalmente,
desesperadamente
por isso é tão leal
estraçalha o peito arfante 
vira do avesso a alma, enebria de emoções.

4 de junho de 2016

Ausência

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
pra que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta
O mar ao que se afunda.

Jorge Luís Borges, Fervor de Buenos Aires 
Obra completas 1923-1949, vol. 1

Distância

É necessário a distância do ser
distância de tempo e espaço
para reconhecer todas as minúsculas falhas e desencontros
todos os caminhos percorridos até então,
da estrada
Está  chamada vida!

Ruas de memórias aliadas pela saudade
pedras e pó da solidão dos dias, do penar das horas
na terra pesada e crua,
no entanto a pele nua e sedenta procura abrigo
Como amantes procuram calor
nos corpos entrelaçados na noite escura,
Como uma criança procura os braços maternos
ás horas tempestuosas e aflitas

Outras estradas reservam jardins floridos
fartos e prósperos 
e imensos de alegria e ternura
Está  chamada vida!

3 de junho de 2016

Trópico de Câncer

Se aqui se revela uma capacidade de escandalizar, de assustar os sem-vida, fazendo-os sair de sua profunda sonolência, congratulemo-nos conosco mesmos; pois a tragédia de nosso mundo é precisamente a de nada mais ser capaz de despertá-lo da letargia. Não mais sonhos violentos, nenhum revigoramento, nenhum despertar. Na anestesia produzida pelo autoconhecimento, a vida está passando, a arte está passando, fugindo de nós: estamos vagando com o tempo e nossa luta é contra sombras. Precisamos de uma transfusão de sangue.

Trecho de Anais Nin sobre Trópico de Câncer, de Henry Miller

2 de junho de 2016

Jean-Paul Sartre, A Náusea


Violette Leduc

Meu caso não é único: tenho medo de morrer e sinto-me aflita por estar no mundo. Nunca trabalhei. Nunca estudei. Chorei e gritei. As lágrimas e os gritos tomaram muito do meu tempo. 
Pensar no tempo perdido é uma tortura. Não sou capaz de pensar longamente, mas posso deleitar-me na contemplação de uma folha de alface murcha, onde não tenho remorsos para ruminar. O passado não nos alimenta.
Partirei tal como cheguei, intacta, carregada de todos os defeitos que me torturaram. Gostaria de ter nascido estátua, mas não passo de uma lesma debaixo da minha estrumeira. As qualidades, as virtudes, a coragem, a meditação, a cultura. De braços cruzados, esfacelei-me contra essas palavras.


Violette Leduc | Autora de La bâtardeThérèse et Isabelle


Entrevemos um mundo cheio de tumulto e arrebatamento, onde o amor muitas vezes toma o nome de ódio, onde a ciência de viver não raro se expande em gritos de desespero; mundo que a solidão devastou e parece árido ao longe. Mas não é. Sou um deserto que fala sozinho, escreveu-me Violette Leduc um dia, numa carta. Pois encontrei nesse deserto inúmeras belezas. Além disso, os que vêem falar-nos do fundo da sua solidão de nós falam (...)
Por mais mundano ou combativo que seja, todo o homem tem subterrâneos onde ninguém ousa penetrar, nem mesmo ele; mas que existem: a noite da infância, os desaires, as renúncias, a súbita comoção de uma nuvem em pleno céu. Surpreender uma paisagem, um ser, tal como existem na nossa ausência: sonho impossível que acalentamos todos.

Simone de Beauvoir |Sobre obra de Violette Leduc

11 de maio de 2016

O destino é como o vento

No entanto, a alma adoece, com tudo aquilo que a mão não alcança
que os olhos não vêem,
tudo que emoções não permeiam e realizam
juvenil é seu rosto,mas sua alma esta, que sente o peso dos séculos
desmorona, o tempo acusa e dá a sentença:
tudo que é efêmero pode ser tomado como tormento ou paz.

7 de maio de 2016

Tormenta e Glória

Paris é um festa alertava, Ernest Hemingway,
no espaço entre sua tormenta e glória
tristeza faz moradia em qualquer lugar num buraco fétido
ou no castelo monumental
o diamante não tem brilho algum e o valor fez-se inútil
a tristeza está na alma,
mil anos na miséria compensariam mais
quando o amor é que reina
concluo então,
que algumas taças de vinho na solidão são mais eficientes
do que o confronto mórbido com a realidade
e o tempo.
Felicidade é tal como um vaga-lume
ilumina e apaga,
tal como os breves momentos de encorajamento e vigor
tal como essa mesma ilusão que como uma linha
tênue me pendura
entre a sobriedade e a loucura
sem amor a coroa torna-se insignificante para o rei.

Dos Rios para o Mar


Liberdade

Por vezes, à beira-mar, no perpétuo movimento das águas e no eterno fugir do vento, sinto o desafio que a eternidade me lança. Pergunto-me então o que vem a ser o tempo, e descubro que não passa do consolo que nos resta por não durarmos sempre.
Que é do mar se os rios se recusam? Estou, afinal, perto do mar e da sua ciência. Ninguém pode exigir ao mar que traga todos os barcos, ou ao vento que encha todas as velas. 

Tem confiançaa noite não é mais que um momento de trevas entre dois dias.

Stig Dagerman  | Em a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer

6 de maio de 2016

Intempérie

Na busca incessante de sentido
o tempo corre desenfreado,
ponteiros giram absolutos
a vida passa, gasta como as solas dos sapatos
o corpo repousa

O tempo não tem a mesma permissão
assim caminha a tempestade, em seu regresso
que logo reina
a náusea da monotonia
distante o sol desponta em outro canto, são outros sonhos
outras vidas.

E eu permaneço no café da cidade
contemplando as marcas de suor nas vidraças
e as mãos estendidas nas folhas em branco
fitando o indecifrável, na solidão
com a súbita vontade de andar sem rumo
por estradas sem fim.

28 de abril de 2016

Poética da métrica

Dou-me a vasta permissão de errar
e inventar palavras desconexas
dou-me a permissão de escrever sem regras e rimas
a permissão de buscar incansavelmente a dor e o prazer
e procurar por inesgotáveis fontes de alegrias
de provar do veneno
do amargo e do açúcar dos cafés, dos bares,
dos lugares e mares
ouso a recusar o que é mecânico e ensaiado.
a natureza e a liberdade é tudo o que há 
de mais próximo que verdade.

27 de abril de 2016

Tonio Kröger

(...) Enquanto eu fico deitado na areia, ocioso e perdido, de olhar fixo para o misterioso e mutável jogo de expressão que desliza sobre a face do mar.

Tonio Kroger. Thomas Mann1ª Edição, Abril Cultural, 1971

Oslo, August 31st






25 de abril de 2016

La Musique

A música para mim tem seduções de oceano! 
Quantas vezes procuro navegar, 
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano, 
Minha pálida estrela a demandar! 

O peito saliente, os pulmões distendidos 
Como o rijo velame d'um navio, 
Intento desvendar os reinos escondidos 
Sob o manto da noite escuro e frio; 

Sinto vibrar em mim todas as comoções 
D'um navio que sulca o vasto mar; 
Chuvas temporais, ciclones, convulsões 

Conseguem a minh'alma acalentar. 
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera, 
Que desespero horrível me exaspera!

Charles Baudelaire


14 de abril de 2016

Melancolia

Há uma melancolia que jamais me abandona
ás vezes, sorrateira procura distrair-se,
ainda que permaneça em seus resquícios
a felicidade reina
em dois passos novamente bate a porta
e instala-se com suas malas absortas de temores, saudades,
lamentações e cansaço,
carregando todo o peso de uma vida.

Tonio Kroeger

Veja, senhor, aquelas estrelas. Ali estão elas brilhando, por Deus, o céu está repleto delas. Agora peço-lhe, quando se olha para cima e se pense que muitas delas dizem ser cem vezes maiores que o mundo, como é que a gente se sente? Nós, homens, inventamos o telégrafo e o telefone e tantas outras aquisições da era moderna, sim, isto fizemos. Mas quando olhamos para cima é preciso reconhecer e compreender que, no fundo, somos uns vermes, vermes miseráveis e nada mais. Respondeu a si mesmo e acenou com a cabeça, humilde e abatido para o firmamento.

Tonio KrogerThomas Mann1ª Edição, 1971

No lo leas ahora


Y no me ves…
ni sabes que voy yo…
pero yo voy… mi mano… 
en mi otra mano… 
y tan contenta
porque voy a tu lado.
Margarita Gil Roësset, nota do diário para Juan Ramón Jiménez

7 de abril de 2016

Prelúdio

Onde existe a beleza incomparável da alma e do corpo
Existe o desejo irreprimível da natureza humana
Tudo o que a difere de todas as outras

A forma como move os lábios quando sorri
ou como soa a voz, pacifica e serena pela manhã
o modo como move as pernas quando impaciente
depois de ordenar as teclas do piano
como debruça na janela ao entardecer
e demostra com veemência a mentalidade madura
para compensar o ar infantil e frágil
convicta de suas escolhas

Repara nos detalhes e na forma como ajeita a gravata
do homem que agora lhe beija com desprezo
o mesmo que em outrora cantava
canções ao pé do ouvido nas madrugadas insólitas
tudo o que a difere de todas as outras.

6 de abril de 2016

Seção cinematográfica

Algumas vezes na vida tive momentos de absoluta clareza, 
nesses momentos por alguns 
breves segundos o silêncio abafa o barulho. 
E eu posso sentir, em vez de pensar. 
E as coisas parecem tão claras, e mundo parece tão revigorante. 
É como se surgisse uma nova ordem, não posso fazer com que tais 
momentos perdurem. 
Eu me agarro a eles, mas como tudo eles se dissipam.
Eu vivi desses momentos, eles me trazem ao presente. 
E eu me dou conta, 
de que tudo está exatamente como deveria estar.

A Single Man, 2009
Baseado no livro homônimo de Christopher Isherwood



2 de abril de 2016

Seção poética

Agora vamos alcançar tudo
o que não podemos amar na vida
com o estrelar das noites inumeráveis.
Ressuscita-me, ressucita-me ainda que mais não seja 
por que sou poeta e ansiava o futuro.
Ressuscita-me lutando contra as misérias do cotidiano.
Ressuscita-me, por isso ressuscita-me. 
Quero acabar de viver o que me cabe, minha vida, 
para que não mais existam amores servis. 
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se por uma casa, um buraco. 
Ressuscita-me para que a partir de hoje, 
a partir de hoje, a família se transforme 
e o pai seja pelo menos o universo
e a mãe seja no mínimo a terra.

Trecho do poema Amor de Vladimir Maiakovski adaptado.
Versão Completa e Poema Recitado 

Seção cinematográfica

















Un Homme Qui Dort, Dir. Bernard Queysanne, 1974
Baseado no livro homônimo de Georges Perec

26 de março de 2016

Epifania do Adeus

Onde há o brilho e a lembrança
de uma lembrança
de um sorriso, ali está
El secreto de
sus ojos
onde há luz, memória e sombra
ali está
El secreto de
sus ojos
Onde há o toque exímio dos dedos
no rosto suave
e nas notas de um piano
a mesma mão que acena um adeus
ali, há vida
em todo seu equívoco e plenitude.

Seção poética

Amo as horas noturnas do meu ser em
que se me aprofundam os sentidos
nelas fui eu achar, como em cartas velhíssimas,
já vivida a vida dos meus dias
e como lenda longínqua e superada.
Delas eu aprendi que tenho espaço
para uma segunda vida, vasta e sem tempo.

E por vezes me sinto como a árvore

que, madura e rumorosa, sobre uma campa
realiza o sonho que o menino foi
(em volta do qual apertam suas raízes quentes)
e perdeu em tristezas e canções.

Rainer Maria Rilke em Poemas, As elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu. 
Tradução Paulo Quintela.



O consolo

Proclama em voz alta na solidão, no marasmo da noite
tudo aquilo
que te faz sorrir
proclama em voz alta contra os muros do pensamento
muros sombrios 
proclama o amor que arde no peito e o que eleva os sentidos 
proclama até que baste o ar e a poesia:
desespero haverá de findar.

Seção cinematográfica

Como se faz para viver uma vida vazia?
Como se faz para viver uma vida cheia de nada?
El Secreto de Sus Ojos
Dir. Juan José Campanella, 2009

15 de março de 2016

Existência

Não temas a solidão, nem o silêncio das ruas e arvoredos
ao redor da cidade e nas colinas tão distantes
na calada das noites inefáveis e intermináveis
não temas, os amores incompreensíveis
e os prazeres da vida
não temas, as dúvidas e as marcas do tempo.

3 de março de 2016

Do tempo

Sou alguns versos trincados
de Elisabeth Bishop para Lota
ou alguma lágrima caída num papel em branco
sou o remédio e a bebida que ali está
para aniquilar toda dor e toda mágoa
temporariamente - reforço a pálpebra
é preciso sentir na veia, no sangue que ali corre
folheando a página do livro
como fossem elas, as alternações das horas, do dias
procurando
alguma palavra empática sobre a arte de perder
ou de ganhar
amor só vale quando atinge o âmago da alma.

19 de fevereiro de 2016

O Pôr do Sol

Os passos são lentos e serenos
á beira da praia, em maricá, a areia é minuciosa
e caminha alguém na
destreza do vento, tal como ela, cabelos ao vento
a melancolia na alma
e no rosto
que destaca os olhos furiosos e intimidadores
de uma mulher inquieta e apaixonada.

10 de fevereiro de 2016

Flor da pele

Das vielas e cafés da cidade
e dos mais corriqueiros gestos e palavreados
além do óbvio e do morno 
o riso, o pranto, o desespero,
escassez do vento 
da chuva, o toque minucioso da pele suave
a melancolia, tão firme
outrora,
tão branda,
como uma Gnossienne de Satie
por vezes, o amor supre a existência.

2 de fevereiro de 2016

Nota sobre Stig Dagerman

Dá-me algo, algo mais que a sorte, 
algo mais que dúvidas
mais que formas e fórmulas
algo mais que drogas perigosas 
mais que medo e algo mais que rotina
dá-me vida pelos poros, pelas veias 
coragem e ouvidos atentos, lábios semicerrados
dá-me algo mais que aventura, mais que angústia 
o rosto nem sempre denuncia a idade
e idade nem sempre entrega sabedoria
lareira e livros em língua estrangeira, não satisfaz 
o chá da tarde, a chuva em regresso
inúmeras certezas
o sentido da vida, a confrontação com a verdade
satisfaz?

Billie Holiday - Easy Living


25 de janeiro de 2016

O vinho da solidão

Há algo no tempo, algo na gotas de chuva
e do vinho
há algo reconfortante no dia,
um fascínio secreto
como as palavras ditas e sussurradas com amor
como a música que guia os passos
na dança dos nossos sonhos de juventude
tudo o que devia ser
como algum poeta disse certa vez em lamentações
manuel bandeira creio eu,
 ―  toda uma vida que podia ter sido e que não foi
a vida não pode ser feita disso, amigo
agarro-me a algo maior e
tudo basta por alguns segundos, por breve
basta a recordação dos tempos de ternura
e a vida é revelada
e isso basta
por alguns segundos, basta.

23 de janeiro de 2016

Na neve do não esquecimento

Frágil é o silencio, tão frágil como a solidão
tão frágil como a memória
e lembranças que pairam no tempo
são as horas que se arrastam
os minutos, os segundos
os dias, as noites
e as madrugadas em claro
e a ausência é aquela que dissipa a esperança
não há força de sopro da vida
não há vigor
são as pálpebras
os olhos melancólicos
as mãos frias
no entanto esse é o meu semblante mais pacifico.

11 de janeiro de 2016

Canto fúnebre por Edna St. Vincent Millay

Não me conformo em ver baixarem à terra dura os corações amorosos,
É assim, assim há de ser, pois assim tem sido desde tempos imemoriais:
Partem para a treva os sábios e os encantadores. Coroados
de louros e de lírios, partem; porém não me conformo com isso.
Amantes, pensadores, misturados com a terra!
Unificados com a triste, indistinta poeira.
Um fragmento do que sentíeis, do que sabíeis,
uma fórmula, uma frase resta — porém o melhor se perdeu.