4 de junho de 2016

Ausência

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
pra que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta
O mar ao que se afunda.

Jorge Luís Borges, Fervor de Buenos Aires 
Obra completas 1923-1949, vol. 1

Distância

É necessário a distância do ser
distância de tempo e espaço
para reconhecer todas as minúsculas falhas e desencontros
todos os caminhos percorridos até então,
da estrada
Está  chamada vida!

Ruas de memórias aliadas pela saudade
pedras e pó da solidão dos dias, do penar das horas
na terra pesada e crua,
no entanto a pele nua e sedenta procura abrigo
Como amantes procuram calor
nos corpos entrelaçados na noite escura,
Como uma criança procura os braços maternos
ás horas tempestuosas e aflitas

Outras estradas reservam jardins floridos
fartos e prósperos 
e imensos de alegria e ternura
Está  chamada vida!

3 de junho de 2016

Trópico de Câncer

Se aqui se revela uma capacidade de escandalizar, de assustar os sem-vida, fazendo-os sair de sua profunda sonolência, congratulemo-nos conosco mesmos; pois a tragédia de nosso mundo é precisamente a de nada mais ser capaz de despertá-lo da letargia. Não mais sonhos violentos, nenhum revigoramento, nenhum despertar. Na anestesia produzida pelo autoconhecimento, a vida está passando, a arte está passando, fugindo de nós: estamos vagando com o tempo e nossa luta é contra sombras. Precisamos de uma transfusão de sangue.

Trecho de Anais Nin sobre Trópico de Câncer, de Henry Miller

2 de junho de 2016

Jean-Paul Sartre, A Náusea


Violette Leduc

Meu caso não é único: tenho medo de morrer e sinto-me aflita por estar no mundo. Nunca trabalhei. Nunca estudei. Chorei e gritei. As lágrimas e os gritos tomaram muito do meu tempo. 
Pensar no tempo perdido é uma tortura. Não sou capaz de pensar longamente, mas posso deleitar-me na contemplação de uma folha de alface murcha, onde não tenho remorsos para ruminar. O passado não nos alimenta.
Partirei tal como cheguei, intacta, carregada de todos os defeitos que me torturaram. Gostaria de ter nascido estátua, mas não passo de uma lesma debaixo da minha estrumeira. As qualidades, as virtudes, a coragem, a meditação, a cultura. De braços cruzados, esfacelei-me contra essas palavras.


Violette Leduc | Autora de La bâtardeThérèse et Isabelle


Entrevemos um mundo cheio de tumulto e arrebatamento, onde o amor muitas vezes toma o nome de ódio, onde a ciência de viver não raro se expande em gritos de desespero; mundo que a solidão devastou e parece árido ao longe. Mas não é. Sou um deserto que fala sozinho, escreveu-me Violette Leduc um dia, numa carta. Pois encontrei nesse deserto inúmeras belezas. Além disso, os que vêem falar-nos do fundo da sua solidão de nós falam (...)
Por mais mundano ou combativo que seja, todo o homem tem subterrâneos onde ninguém ousa penetrar, nem mesmo ele; mas que existem: a noite da infância, os desaires, as renúncias, a súbita comoção de uma nuvem em pleno céu. Surpreender uma paisagem, um ser, tal como existem na nossa ausência: sonho impossível que acalentamos todos.

Simone de Beauvoir |Sobre obra de Violette Leduc