15 de junho de 2016

Cotidiano

Resta do cotidiano,
o único e indispensável alento da poesia que renasce
depois das horas noturnas
com o sol que desponta
nas montanhas distantes e mágicas
e da garoa fina que cai no encerramento da
branda tarde
no ligeiro toque das mãos para proteger o chápeu
e da pluma que, insistentemente o vento leva
branda é a tarde,
tão branda como uma Gnossienne de Satie

Canção do suicida

Só mais um momento
que voltem sempre a cortar-me
a corda
Há pouco estava tão preparado
e havia já um pouco de eternidade
nas minhas entranhas

Estendem-me a colher,
esta colher de vida.
Não, quero e já não quero,
deixem-me vomitar sobre mim.

Sei que a vida é boa
e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue,
a mim só me sobe à cabeça.

Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;
compreendei que há quem a despreze
Durante pelo menos mil anos
preciso agora fazer dieta.


Rainer Maria Rilke
Tradução Augusto de Campos

14 de junho de 2016

Cerimônia do Adeus

A respiração displicente, o riso dos amantes,
embriagados de vinho tinto
sobre a mesa antiquada de madeira e nos bulevares parisienses,
e nas gôndolas em Veneza
―  o céu azul veludoso, o vinho quente, a doce sensualidade
que a tanto, seduzira Thomas Mann
exala a verniz, memória está, não aniquilada
o prazer em sofrer minucioso e dilacerante
como o tremular da lua refletida na água
desse mar tão solitário, devastado em melancolia.

Sviatoslav Richter

Notas do café solitário

Nos cafés e nos bares desconhecidos
almas espelhadas refletem a inquietude da existência
nas ruas silenciosas e nos becos, nos lares
almas espelhadas refletem: o amor infindável
E a solidão infindável
está equivalente as notas de um piano
solidão não-palpável, ainda sim
traiçoeira e dilacerante
Como o tempo, adágio ressoa
E a beleza fere como espinhos de rosas.

Nasce o poema

Há quem pense
que sabe
como deve ser o poema
eu
mal sei
como gostaria que ele fosse

porque eu mudo
o mundo muda
e a poesia irrompe
donde menos se espera (...)

Ferreira Gullar, Barulhos

Ode à rebeldia

A poesia quando chega
não bate à porta
não obedece regras, salta do peito e faz alvoroço
naturalmente,
desesperadamente
por isso é tão leal
estraçalha o peito arfante 
vira do avesso a alma, enebria de emoções.