18 de agosto de 2016

A eternidade e um dia

Amanhã, o que é o amanhã? 
Uma vez te perguntei quanto tempo dura o amanhã e você respondeu: uma eternidade e um dia.
Theo Angelopoulos, 1998






17 de agosto de 2016

Anais Nin

Em dezembro de 1946, Leo Lerman, editor de uma revista, pediu a Anaïs Nin que escrevesse uma curta autobiografia para a publicação. Ela declinou o convite com uma carta, completa aqui: https://raiar.wordpress.com/tag/anais-nin/

Eu me vejo e a minha vida a cada dia de um modo diferente. O que eu posso dizer? Os fatos mentem. Tenho sido Don Quixote, sempre criando um mundo por conta própria. Eu sou todas as mulheres nas novelas, e ainda assim sou outra que não está nas novelas. Levei mais de sessenta volumes de diário até agora para contar sobre minha vida. Como Oscar Wilde, coloquei apenas minha arte em meu trabalho e meu gênio em minha vida. Minha vida não é possível de contar. Eu mudo a cada dia, mudo meus padrões, meus conceitos, minhas interpretações. Sou uma série de humores e sensações. Atuo em mil papéis. Choramingo quando percebo que outras pessoas estão atuando neles por mim. Meu verdadeiro eu é desconhecido. Meu trabalho é meramente uma essência dessa vasta e profunda aventura. Eu crio um mito e uma lenda, uma mentira, um conto de fadas, um mundo mágico, que colapsa todo dia e me faz sentir como se estivesse indo à la Virginia Woolf. Eu tentei não ser neurótica, não romântica, não destrutiva, mas posso ser tudo isso disfarçado.

É impossível fazer meu retrato por causa de minha mobilidade. Não sou fotogênica por causa de minha mobilidade. Paz, serenidade e integração são desconhecidos meus. Meu clima familiar é a ansiedade. Eu escrevo enquanto respiro, naturalmente, fluidamente, espontaneamente, a partir de um transbordamento, não como um substituto para a vida. Estou mais interessada em fazer amor do que em escrever. Mais interessada em me tornar uma obra de arte do que em criar uma. Sou mais interessante do que aquilo que escrevo. Acima de tudo, tenho o dom do relacionamento. Eu não tenho confiança em mim mesma e grande confiança nos outros. Preciso de amor mais do que de comida. Tropeço e cometo erros, e frequentemente quero morrer. Quando eu pareço mais transparente é provavelmente quando acabei de sair do fogo. Sempre caminho para o fogo, e saio dele viva (...)

Penso que a vida é trágica, não cômica, porque não tenho desapego. Tenho sido culpada de idealização, culpada de tudo exceto desapego. Sou culpada de fabricar um mundo no qual eu possa viver e convidar outros a viver nele, mas fora dele não consigo respirar. Sou culpada de uma vida muito séria, muito grave, mas nunca de uma vida superficial. Eu tenho vivido em minhas profundezas. Minha primeira tragédia me mandou para o fundo do mar; vivo em um submarino, e muito raramente venho à superfície. Adoro costumes, a espuma da estética, noblesse oblige, e escritores poéticos. Aos quinze anos eu queria ser Joana D’arc, e depois, Don Quixote. Nunca acordei de minha familiaridade com miragens, e provavelmente terminarei em um claustro de ópio. 
Sou aparentemente gentil, instável, e cheia de pretensões. Morrerei como um poeta morto por não-poetas, não renunciarei a nenhum sonho, não me resignarei a nenhuma feiura, não aceitarei nada do mundo que não tenha sido aquilo que criei por mim mesma. Eu escrevi, vivi, amei como Don Quixote, e no dia de minha morte direi: ‘Com licença, foi tudo um sonho’, e então posso encontrar alguém que dirá: ‘De modo algum, foi tudo verdade, absolutamente verdadeiro.’

— Anaïs Nin, em
The Diary of Anais Nin, Vol. 4: 1944-1947

Erik Satie - Nocturne No. 1


16 de agosto de 2016

A Lua

Confidente dos amantes
É a lua, 
no entanto, solitária e onipresente
O casal de mãos dadas na beira do cais,
Na noite estrelada, 
sonhos de outrora
De imensidão 
Bonita é a lua redonda, melancólico clarão 
Inalcançável como o amor que findou
Como o grão de areia, que da mão,
Silenciosamente escapou.

Agora há o desleixo, domina a inquietude
Onde a palavra não penetra
Onde as notas do piano são ocas.
Rosto inexpressivo
Rosto desconhecido no espelho,
Pontua amargura no coração

Ponteiro é o tormento,
O juiz em razão:
Sentencia o tempo, piedade não convém

E a lua, confidente dos amantes
É minha companheira também, 
Não deseja razão
A lua, a lua, nas longas noites de solidão.