30 de janeiro de 2017

Jorge Luis Borges - 1964

O mundo já não é mágico, deixaram-te sair
Já não compartilhas a lua clara
nem os jardins lentos.
Já não há uma lua que não seja espelho do passado,
Cristal da solidão, sol das agonias.
Adeus às mãos e os pares mútuos
que o amor aproximou.
Hoje só tens a fiel memória e os dias desertos.
Ninguém perde (repetes inutilmente)
Senão o que não tem e que tinha tido,
porém não é bastante ser valente
para aprender a arte do esquecimento.
Um símbolo, uma rosa, se desgarra
E te pode matar uma guitarra.

Já não serei feliz. Talvez não importa.
Há muitas outras coisas neste mundo;
Um instante qualquer é mais profundo
e diverso do que o mar. A vida é curta
embora as horas sejam assim tão largas,
uma obscura maravilha nos achega,
a morte, esse outro mar, essa outra seta
que nos livra do sol, da lua
e do amor. A felicidade que me destes
e me tomastes deve ser apagada;
O que era tudo não deve ser nada.
Só me resta o gozo de estar triste,
Este vão costume que me inclina
ao sul, para certa porta, para certa esquina.

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