6 de abril de 2017

Palavras lascivas em voz de veludo

O homem ri, ri da solidão que debruça na janela ou estica-se na cama, da solidão tamanha que parece ganhar corpo e ocupar espaço e tempo, ri da descrença, ri em pé, encostado na parede tomando seu café na madrugada vazia, ri das horas que se estendem sem companhia, ri dos vultos de sua memória, da mulher que ajoelha aos seus pés na hora da partida implorando por sua permanência, ri dos inimigos que mais parecem amantes, ri da eficácia da mentira e da aparência impecável e rigorosa com que sustentam os amantes, ri da forma como ela pronuncia o seu nome e de sua beleza jovial, proferindo palavras lascivas em voz de veludo
enquanto dobra minuciosamente a manga de seu paletó verde musgo
ri do confronto lancinante entre a carne e alma e da certeza indelével de que o amor é fonte de paz e tormenta.

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