31 de janeiro de 2017

O confronto do eu

Ás vezes é a necessidade do silêncio
abafando os ruídos cotidianos
o trafego ensurdecedor,
o carro, o cão latindo na rua ao lado

interrompendo a televisão ligada inutilmente
para distrair a solidão
com vozes alheias

a solidão é latente nas pessoas que caminham
ao redor apressadas ou sorridentes,
a voz interior desconfortável
e tão necessária,
ouvir o som da própria respiração 
pode ser o alívio
sentir a vida em todos os poros
em instantes tudo clarifica

ás vezes é a vontade de trocar de pele
de corpo
de tom de voz,
de nome e de sobrenome
cultivar só o amor
o confronto do eu
é como um filme em preto e branco, longo
demasiado
uma serie de repetições
e o que é senão a vida?
e a poesia reside ali
nessas brechas raras
naquela moeda caída no chão
que todo mundo pisa e não vê
nos corpo que colidem, se emaranham
desesperados
ou no violino que toca e os transeuntes
apressados ignoram.

Crônicas do Mal de Amor - Elena Ferrante (Talvez seja só silêncio)

Um percurso marcado pela contenção: cada palavra, cada frase, é limada de modo a ter o efeito semelhante ao da moinha que corrói, da dor, do lancinante capaz de transformar o mais lúcido em louco. 
(....) O que se segue é uma luta pessoal em que o que é decente ou sórdido, moral ou imoral, lógico ou louco se sucede sem aviso. Alguém tenta encontrar o seu lugar no mundo depois de uma notícia à sobremesa que tem o efeito de uma vertigem. A queda perece inevitável e o percurso é uma espiral — quem a percorre tenta tanto evitar o chão como chegar lá o mais depressa possível. 
E Olga a pensar: “Não passamos de seres ocasionais.” 
(...) É no desequilíbrio que nos revelamos.

Trechos da análise critica e resenha de Crônicas do Mal de Amor de Elena Ferrante.



A Mão e a Luva

— Mas que me dá você em paga? Um lugar na Câmara? Uma pasta de ministro? 
— O lustre do meu nome, respondeu ele.
Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão...
          Trecho do segundo romance A mão e a luva (Machado de Assis,1874)

30 de janeiro de 2017

Jorge Luis Borges - 1964

O mundo já não é mágico, deixaram-te sair
Já não compartilhas a lua clara
nem os jardins lentos.
Já não há uma lua que não seja espelho do passado,
Cristal da solidão, sol das agonias.
Adeus às mãos e os pares mútuos
que o amor aproximou.
Hoje só tens a fiel memória e os dias desertos.
Ninguém perde (repetes inutilmente)
Senão o que não tem e que tinha tido,
porém não é bastante ser valente
para aprender a arte do esquecimento.
Um símbolo, uma rosa, se desgarra
E te pode matar uma guitarra.

Já não serei feliz. Talvez não importa.
Há muitas outras coisas neste mundo;
Um instante qualquer é mais profundo
e diverso do que o mar. A vida é curta
embora as horas sejam assim tão largas,
uma obscura maravilha nos achega,
a morte, esse outro mar, essa outra seta
que nos livra do sol, da lua
e do amor. A felicidade que me destes
e me tomastes deve ser apagada;
O que era tudo não deve ser nada.
Só me resta o gozo de estar triste,
Este vão costume que me inclina
ao sul, para certa porta, para certa esquina.