8 de abril de 2017

Sobre a solidão

De Maysa para Carlos Alberto

Meu amor,
Agora que você adormeceu, que esse dia passou a ser uma partida, agora que até um sol meio canalha está me gozando, passeando aqui pela varanda, agora que é agora só por instantes e vai ser depois inexoravelmente, e que, não há a menor dúvida, você parte nesse depois, é que acho que a única coisa que me resta é fazer como os tolos infelizes, ou seja, emudecer, deixar que os meus olhos, que são a minha verdadeira boca, saibam, com a dignidade que só os cães têm, fazer do silêncio a minha forma de te acompanhar, de estar contigo nesta ida tua que eu não entendo, mas devo.

Transformar todos esses verbos, entender, partir, dever, partir, em um só: amar. Amar tudo que seja teu, até mesmo a tua partida. O diabo é que não é fácil. Enquanto estou aqui gravando tua fita, o som das músicas que são da gente é uma faca que me corta, corta tanto que a dor está rindo pelo conseguido. E, por falar em rir, como é triste o som de um violino quando a gente está triste. Nunca tinha percebido isso. Ao contrário, sempre achei que o violino era o rei da demagogia. Que nada, amor. É um puta sabe-tudo, companheiro pacas, e chora tão bonito quanto eu.

Volta amor, porque fiquei aqui.
Te amo.

Maysa

Para ler a íntegra clique aqui

7 de abril de 2017

Cartas de Amor do Profeta

O silêncio é doloroso, mas é no silêncio que as coisas tomam forma, e existem momentos em nossas vidas em que tudo que devemos fazer é esperar. Dentro de cada um, no mais profundo do ser, está uma força que vê e escuta aquilo que não podemos ainda perceber. Tudo o que somos hoje nasceu daquele silêncio de ontem. Somos muito mais capazes do que pensamos. Há momentos em que a única maneira de aprender é não tomar qualquer iniciativa, não fazer nada. Porque, mesmo nos momentos de total inação, esta nossa parte secreta está trabalhando e aprendendo. Quando o conhecimento oculto na alma se manifesta, ficamos surpresos conosco mesmos, e nossos pensamentos de inverno se transformam em flores, que cantam canções nunca antes sonhadas. A vida sempre nos dará mais do que achamos que merecemos (...)
Minha amada Mary, quando a alma está mergulhada em pensamentos que mudam sempre, perdemos o poder das palavras. Mas, embora a minha lenta compreensão de Deus tenha me acompanhado por todos estes meses, nunca deixei de estar com você, e sempre tive certeza de que nós dois nos falamos através deste silêncio exterior.
Precisamos de uma companhia para conversar de madrugada, ou durante os longos passeios no parque. Mesmo distante, você tem sido esta companheira.
A dor pode ser criativa. Sejamos bem directos, e analisemos o nosso caso: sofri muito por tua causa, e o mesmo aconteceu contigo. Mas foi graças a isso que descobrimos coisas - dentro de nós - de quem nem sequer sabíamos da existência.
Algumas pessoas atingem o que há de melhor na vida usando a alegria. Outros usam o sofrimento.
Mas a maior parte dos seres humanos não se permite nem uma coisa, nem outra; então, não atingem nada, e apenas passam por esta vida.
Cartas de Amor do Profeta, correspondência de Kahlil Gibran a Mary Haskell

6 de abril de 2017

Palavras lascivas em voz de veludo

O homem ri, ri da solidão que debruça na janela ou estica-se na cama, da solidão tamanha que parece ganhar corpo e ocupar espaço e tempo, ri da descrença, ri em pé, encostado na parede tomando seu café na madrugada vazia, ri das horas que se estendem sem companhia, ri dos vultos de sua memória, da mulher que ajoelha aos seus pés na hora da partida implorando por sua permanência, ri dos inimigos que mais parecem amantes, ri da eficácia da mentira e da aparência impecável e rigorosa com que sustentam os amantes, ri da forma como ela pronuncia o seu nome e de sua beleza jovial, proferindo palavras lascivas em voz de veludo
enquanto dobra minuciosamente a manga de seu paletó verde musgo
ri do confronto lancinante entre a carne e alma e da certeza indelével de que o amor é fonte de paz e tormenta.

Milan Kundera

Quando a dor se torna aguda, o mundo desvanece-se e cada um de nós fica a sós consigo mesmo. A dor é a Escola Superior do egocentrismo.

Será pensável o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando deixamos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de o amar.

Milan Kundera - A imortalidade

Para Sabina, viver na verdade, não mentir nem a si próprio nem aos outros, só é possível se não houver público nenhum. A partir do momento em que os nossos actos têm uma testemunha, quer queiramos quer não, adaptamo-nos aos olhos que nos observam; e, a partir de então, nada do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar num público, é viver na mentira.

Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona de seu cérebro. Tereza ocupava como déspota sua memória poética e dela varrera todos os traços das outras mulheres. (…) O amor começa por uma metáfora. Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética.”


Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser

Thomas Mann

Cheguei ao termo, Lisavieta. Ouça-me. Amo a vida — isto é uma confissão.
Aceite-a e guarde-a — eu nunca a fiz a ninguém.
Ele seguia o caminho que devia seguir, um pouco negligente e sem ritmo, assobiando, com a cabeça inclinada para o lado, olhando para a distância, e, quando errava o caminho, isto acontecia porque para alguns seres não existem caminhos certos. Quando lhe perguntavam o que pensava ser, dava informações contraditórias, pois que costumava dizer (e já tomara nota disto) que trazia em si possibilidades para mil existências, tendo no íntimo o conhecimento de, no fundo, serem tudo coisas impossíveis (...)
Então veio a solidão, com o tormento e o orgulho da cognição, porque não se sentia bem no círculo dos inocentes com a alma alegre e obscura e estes, por sua vez, sentiam-se perturbados pelo sinal na sua testa. Mas a alegria na palavra e nas formas se tornou cada vez mais doce para ele, pois costumava dizer (e já tomara nota disto) que o conhecimento da alma somente nos faria infalívelmente tristonhos, se o contentamento da expressão não nos conservasse acordados e alegres.

Thomas Mann (Tônio Kroeger - Morte em Veneza)

5 de abril de 2017

Walt Whitman - Leaves of Grass

Primeiro encontro

És tu uma pessoa atraída por mim?

ARE YOU THE NEW PERSON DRAWN TOWARD ME?
A nova pessoa que vem a mim 
é você? 
Ouça um conselho, para começar: 
esteja alerta, sou com certeza bem diferente 
do que imagina
Você imagina encontrar em mim 
seu ideal?
Pensas que é tão fácil ter-me como teu amante?
Pensa que minha amizade 
é fonte de satisfação sem impureza? 
Julga que eu seja fiel e digno de confiança? 
Além desta fachada, 
do meu jeito macio e tolerante, 
você não vê mais nada? 
Acha que vem avançando 
em bases realmente firmes 
na direção de um homem realmente heroico? 
Pela cabeça nunca lhe passou, 
ó sonhadora, 
que tudo isso pode ser maya, ilusão? (p. 63)

Tempos idos

Para ti
TO YOU

Seja você quem for, receio que você esteja 
trilhando as trilhas das ilusões: 
receio que essas supostas realidades 
venham a derreter-se debaixo dos seus pés 
e suas mãos; 
Agora mesmo os teus traços, alegrias, discurso,
casa, negócios, maneiras, problemas, loucuras, trajes,
crimes se dissipam e fogem de ti,
Teus verdadeiros corpo e alma aparecem diante de mim,
Eles se destacam, além dos afazeres, além do comércio,
oficinas, trabalho, fazendas, roupas, a casa, compras,
vendas, refeições, bebidas, sofrimento, morte.
Quem quer que sejas, agora eu imponho as minhas mãos
sobre ti para que sejas meu poema,
Sussurro com meus lábios, próximo ao teu ouvido,
Tenho amado muitas mulheres e homens, mas amo-te mais do que qualquer um.

Ao final

Quem quer que me estejas agora segurando nas mãos
WHOEVER YOU ARE HOLDING ME NOW IN HAND

Seja você quem for 
agora segurando minha mão 
sem uma coisa há de ser tudo inútil 
– é um leal aviso que lhe dou 
antes que continue a me tentar: 
não sou aquele que você imagina, 
mas muito diferente.
Quem é que gostaria 
de vir a ser um seguidor meu? 
Quem é que gostaria de lançar 
sua candidatura ao meu afeto?
O caminho é suspeito, 
o resultado é incerto, destrutivo talvez; 
teriam que abrir mão de tudo mais 
tendo eu a pretensão 
de ser seu padrão único e exclusivo; 
sua iniciação haveria de ser ainda assim 
extensa e fatigante, 
toda a teoria da sua vida passada 
e toda conformidade com as vidas em redor 
precisariam ser abandonadas; 
por isso deixe-me agora 
antes de perturbar-se ainda mais, 
deixe cair sua mão no meu ombro, 
coloque-me de lado e siga seu caminho. (p. 59)


Walt Whitman, Leaves of Grass (Folhas de Relva)